Fenômeno que pode ser um dos mais fortes já registrados deve atingir o auge no fim de 2026, justamente durante período crítico para os rios e a floresta. Estudos alertam que combinação de calor, desmatamento e secas consecutivas pode ampliar incêndios e comprometer a capacidade de recuperação da Amazônia.
A Amazônia pode estar diante de uma nova prova de resistência — e em condições ainda mais perigosas do que as enfrentadas durante as secas históricas de 2023 e 2024.
Um El Niño que se intensifica rapidamente no oceano Pacífico já preocupa cientistas e organismos internacionais. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou, em 3 de setembro de 2026, que o fenômeno está consolidado e deve evoluir para uma fase de intensidade muito forte nos próximos meses, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027.
Para a Amazônia, o calendário é particularmente preocupante.
As projeções indicam que o fenômeno poderá alcançar sua maior intensidade no fim de 2026, coincidindo com a fase final da estação seca em áreas importantes da bacia amazônica — justamente quando os rios costumam estar mais baixos, a vegetação sofre maior estresse hídrico e o material acumulado no solo se torna mais suscetível ao fogo.
O temor dos pesquisadores não é provocado apenas pelo tamanho do fenômeno climático. O problema é que a floresta pode enfrentar um novo evento extremo sem ter se recuperado completamente das secas consecutivas dos últimos anos.
Um El Niño que pode entrar para a história
Dados do Climate Prediction Center, ligado à NOAA, mostram que as anomalias de temperatura da superfície do mar já ultrapassaram 2°C em partes do Pacífico equatorial oriental.
Em julho, os índices climáticos monitorados pela instituição registraram anomalias de +1,4°C na região Niño-3.4, +1,7°C na Niño-3 e +2,9°C na Niño-1+2. Em camadas mais profundas do oceano, as anomalias de temperatura chegaram a aproximadamente +10°C.
Os modelos analisados pela NOAA apontavam, ainda em agosto, mais de 90% de chance de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027.
Mais impressionante: para o trimestre entre outubro e dezembro de 2026, os modelos estimavam 69% de probabilidade de um evento histórico, capaz de superar em intensidade outros El Niños registrados desde 1950.
A Organização Meteorológica Mundial confirmou que as temperaturas excepcionalmente elevadas do Pacífico tropical criam condições para uma intensificação ainda maior do fenômeno, aumentando os riscos de secas, ondas de calor e alterações profundas nos padrões de chuva em diversas regiões do planeta.
A Amazônia ainda carrega as marcas da última grande seca
A preocupação atual ganha dimensão maior quando se observa o que aconteceu durante a recente crise climática amazônica.
Em 2023 e 2024, grandes áreas da região enfrentaram uma das piores secas de sua história recente. Em Manaus, o Rio Negro atingiu níveis que entraram para os registros históricos.
Em outubro de 2024, o rio chegou a 12,26 metros, superando o recorde negativo de 12,70 metros registrado em 2023. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil, aquela foi a menor marca registrada em Manaus desde o início das medições, há mais de um século.
Mas a crise não foi apenas hidrológica.
Um estudo interdisciplinar publicado recentemente sobre os impactos da seca extrema de 2023 na Amazônia Central documentou consequências ambientais e sociais que mostram a dimensão do problema.
Os pesquisadores registraram a morte de 209 botos amazônicos no Lago Tefé, além de mortandade de peixes, alterações na população de jacarés, mudanças na produção de flores e frutos das árvores de várzea e impactos sobre atividades econômicas dependentes dos rios.
A navegação fluvial — essencial para milhares de comunidades amazônicas — foi apontada como um dos principais problemas sociais e econômicos da seca.
O isolamento de comunidades afetou o transporte de alimentos, o acesso a mercados, serviços de saúde e cadeias produtivas como a pesca do pirarucu e a produção de farinha de mandioca.
Agora, cientistas temem que um novo evento extremo encontre a região com rios, solos e ecossistemas ainda fragilizados.
O perigo das secas em sequência
O El Niño, sozinho, não explica a vulnerabilidade atual da Amazônia.
A floresta está enfrentando simultaneamente o aumento das temperaturas globais, a degradação provocada por incêndios, a fragmentação da vegetação e o desmatamento.
Essa combinação pode criar um ciclo perigoso.
Menos árvores significam menor capacidade de transportar umidade pela atmosfera. As árvores amazônicas funcionam como parte de um gigantesco sistema de reciclagem de água: absorvem a umidade e devolvem grandes volumes à atmosfera por meio da evapotranspiração.
Esses fluxos ajudam a formar os chamados “rios voadores”, responsáveis por transportar umidade para diferentes regiões da América do Sul.
Reportagem da Associated Press baseada em pesquisas científicas destacou que a perda da cobertura florestal já enfraquece esse mecanismo. A Amazônia perdeu aproximadamente 17% de sua cobertura florestal original, e cientistas trabalham com a preocupação de que a aproximação da faixa entre 20% e 25% de perda possa aumentar significativamente o risco de transformações irreversíveis em partes do sistema amazônico.
Em outras palavras, o desmatamento não apenas destrói árvores.
Ele pode reduzir a capacidade da própria floresta de produzir chuva.
E menos chuva significa maior vulnerabilidade a novas secas e incêndios.
Novo estudo reduz margem de segurança da floresta
Um estudo publicado em maio de 2026 na revista Nature trouxe uma nova dimensão para esse debate.
A pesquisa, intitulada “Deforestation-induced drying lowers Amazon climate threshold”, analisou como o aquecimento global e o desmatamento podem atuar juntos para desestabilizar diferentes partes da Amazônia.
Os cientistas utilizaram modelos de sistemas dinâmicos e rastreamento do transporte de umidade pela atmosfera.
O resultado indica que, sem considerar os efeitos adicionais do desmatamento, um aquecimento global entre 3,7°C e 4°C poderia colocar até um terço da Amazônia em risco de perder estabilidade.
O problema é que a derrubada da floresta reduz essa margem de segurança.
O estudo conclui que o ressecamento provocado pelo desmatamento pode diminuir significativamente o limite climático necessário para desencadear transições em partes do ecossistema.
Outro trabalho de pesquisadores como Jonathan Krönke, Arie Staal, Jonathan F. Donges, Johan Rockström e Nico Wunderling chegou a uma conclusão ainda mais alarmante.
Utilizando modelos que combinam aquecimento global, desmatamento e reciclagem de umidade, os pesquisadores estimaram que, nas condições atuais — com cerca de 1,4°C de aquecimento global e aproximadamente 17% de desmatamento — mais de um terço da Amazônia já estaria em área de alto risco de ultrapassar limites críticos de estabilidade.
Os autores sugerem que a floresta pode já ter deixado parte de sua chamada “zona segura de operação”.
Calor muda o próprio comportamento das secas
Outro estudo recente, publicado em julho de 2026 na revista Scientific Reports, reforçou a preocupação.
A pesquisa, assinada por cientistas como Ronaldo Albuquerque, Djacinto M. dos Santos, Vitor F. V. V. Miranda, Leonardo F. Peres, Ricardo M. Trigo, Ana M. B. Nunes e Renata Libonati, analisou mudanças no comportamento das secas amazônicas ao longo do século XXI.
O trabalho parte de um problema cada vez mais evidente: a seca não depende apenas da quantidade de chuva que deixa de cair.
Com o aumento das temperaturas, a atmosfera passa a retirar mais água da vegetação e do solo, aumentando o chamado estresse evaporativo.
Assim, mesmo regiões que não apresentam uma redução extrema na chuva podem enfrentar condições semelhantes às de uma seca severa devido ao calor excessivo.
Isso significa que o próximo El Niño poderá encontrar uma Amazônia diferente daquela de décadas atrás.
Mais quente.
Mais fragmentada.
Mais degradada.
E potencialmente mais inflamável.
“Super El Niño” em um planeta mais quente
A cientista Julia Cole, da Universidade de Michigan, liderou uma pesquisa recente que acrescenta outro elemento ao debate.
Segundo estudo divulgado em 2026, a intensidade dos eventos El Niño aumentou significativamente em relação ao período anterior à industrialização.
A análise, baseada em registros geoquímicos preservados em corais das Ilhas Galápagos, sugere que o El Niño moderno está cerca de 36% mais intenso do que no período pré-industrial, com aumento aproximado de 16% nas últimas quatro décadas, segundo a pesquisa.
O resultado reforça uma preocupação crescente entre climatologistas: fenômenos naturais continuam existindo, mas agora acontecem sobre um planeta muito mais quente.
Isso pode potencializar seus efeitos.
Uma seca causada por El Niño no século XXI, portanto, não ocorre nas mesmas condições climáticas de um evento semelhante registrado há décadas.
A temperatura média global mais elevada aumenta a evaporação, seca os solos com maior velocidade e intensifica ondas de calor.
Na Amazônia, isso pode transformar uma temporada seca em uma crise de grandes proporções.
Carlos Nobre alerta para vulnerabilidade da região
O climatologista brasileiro Carlos Nobre, uma das principais referências internacionais nos estudos sobre a Amazônia e mudanças climáticas, tem alertado para o risco de eventos extremos sucessivos.
Em análise recente sobre o novo El Niño, Nobre chamou atenção para a vulnerabilidade da floresta e das populações amazônicas diante da combinação entre seca, calor e incêndios.
Segundo a avaliação, aproximadamente 48 milhões de pessoas vivem na região amazônica, podendo ser afetadas direta ou indiretamente por problemas no transporte fluvial, abastecimento de água, produção de alimentos, energia e saúde pública.
A seca também amplia o risco de incêndios.
Embora as condições climáticas possam tornar a floresta extremamente inflamável, grande parte das queimadas depende da ação humana.
O fogo iniciado para limpeza de áreas, abertura de pastagens ou atividades ilegais pode se espalhar com mais facilidade quando a vegetação está ressecada.
É justamente essa combinação que preocupa cientistas: o clima prepara as condições e a atividade humana fornece a faísca.
Uma floresta diante de um teste de sobrevivência
A possibilidade de um El Niño excepcionalmente forte em 2026 não significa que toda a Amazônia inevitavelmente enfrentará uma seca igual ou superior à de 2023 e 2024.
Os impactos variam conforme a região e dependem de diferentes sistemas atmosféricos e oceânicos.
Mas os indicadores climáticos mostram que o risco é real.
A Organização Meteorológica Mundial trabalha com uma probabilidade próxima de 100% de permanência do El Niño até fevereiro de 2027. A NOAA aponta uma chance superior a 90% de que o evento seja muito forte e estimou 69% de probabilidade de uma intensidade histórica entre outubro e dezembro de 2026.
Para a Amazônia, a questão central talvez seja ainda mais profunda.
A floresta já demonstrou capacidade de sobreviver a secas severas.
O que os cientistas tentam descobrir agora é se ela conseguirá continuar se recuperando quando os eventos extremos começarem a ocorrer em intervalos cada vez menores.
A resposta pode definir não apenas o futuro da maior floresta tropical do planeta.
Pode também determinar o futuro dos rios que abastecem milhões de pessoas, da agricultura sul-americana e de um dos maiores sistemas naturais de armazenamento e circulação de carbono do mundo.
Desta vez, o perigo não está apenas no tamanho do próximo El Niño.
Está no fato de que a Amazônia terá de enfrentá-lo depois de anos de secas, calor, fogo e perda de floresta.
E essa pode ser a diferença entre mais uma crise climática extrema — e a aproximação de um ponto do qual parte da floresta talvez não consiga voltar.
Fonte: newscientist.com















