Um turista russo de 33 anos, Denis Kopanev, foi encontrado morto numa trilha do Horto, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em 30 de setembro do ano passado, após quase quatro meses desaparecido. Na pochete ao lado do corpo, havia GHB, um produto químico usado para limpeza de aviões que, no Rio, assim como em outras metrópoles, caiu no gosto dos adeptos do chemsex, prática de sexo sob o efeito de drogas. O gama-hidroxibutirato, ou GHB, pode causar relaxamento e, combinado ou não a outros psicoativos, levar à morte. Segundo a polícia, Kopanev usou tina, metanfetamina conhecida como “crack dos ricos”, e cocaína, além do solvente.
Entre cariocas e turistas que não temem flertar com o risco, fazem parte do coquetel para apimentar a relação substâncias que aumentam os níveis de neurotransmissores no cérebro e proporcionam sensações que, perigosamente, se sobrepõem às dos hormônios sexuais do prazer. As práticas têm se tornado comuns na cidade, ainda que de forma clandestina, e serão abordadas na série de reportagens do GLOBO “Alquimia do prazer: recortes de um Rio oculto”.
Os efeitos da adrenalina e da noradrenalina também são perseguidos por quem não está entre quatro paredes. Nas boates ou em festas ao ar livre, percebe-se que as novas drogas inspiram artistas em canções que não se encaixam nos chamados “proibidões” e são bem aceitas em todas as classes sociais. Bad Bunny, ídolo latino, por exemplo, versa: “A coca é branca, sim, sim/ o Tusi, rosinha, melhor evitar”. O popstar, com 49,6 milhões de seguidores no Instagram, faz referência ao poder devastador da chamada “cocaína rosa”, um pó de cor delicada e teor explosivo, que pode ser uma mistura de cetamina e MDMA, ou de metanfetamina, cetamina e MDMA, entre outras variações.
O tusi vem de “tusibi”, derivado do inglês “two-cee-bee”, em referência à fórmula química 2C-B. Um economista carioca decidiu experimentar a substância em um momento que descreveu como clima de verão e descontração.
— Foi num bloco, quando um amigo colombiano trouxe — disse ele sobre o pó também conhecido como “droga de rico”, comum em festas de réveillon e com valor que ultrapassa mil reais o grama.
Os componentes da chamada “cocaína rosa”, encontrados também em outras substâncias psicoativas, estão entre os de maior uso no mercado global de drogas ilícitas. Segundo estimativas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, no Relatório Global sobre Drogas publicado no ano passado, o consumo de drogas sintéticas segue em expansão e é dominado pelos estimulantes do tipo anfetamina, como a metanfetamina. O relatório ressalta, no Rio de Janeiro, uma condição favorável à proliferação dessas drogas: a atuação de facções organizadas estruturadas como empresas verticais.
X, um traficante carioca que vende drogas na Zona Sul e na Zona Norte da cidade e consome MD, maconha e cigarro, contou ao GLOBO que usava tusi, mas decidiu parar.
— Vicia muito. Todas as minhas eu joguei na privada em certo momento. Não estava dando mais, não.
Os atendimentos nas redes de assistência social e de saúde relacionados ao consumo de álcool e drogas aumentam ano a ano. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, em 2023 e 2024, respectivamente, 8.997 e 13.789 pacientes passaram por tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, o Capsad, um crescimento superior a 53%. A tendência de alta continua: em 2025, ainda sem os números fechados do ano inteiro, 14.956 pacientes já foram acompanhados pelas equipes.
“Na rede de urgência e emergência, 8.449 pacientes com relato de consumo de álcool e drogas foram atendidos em 2024. Neste ano, até o momento, 9.603 foram atendidos”, informou a Secretaria Municipal de Saúde.
Dois jovens ouvidos pelo GLOBO admitiram que tiveram curiosidade de experimentar novas drogas após ouvir relatos de amigos e, ao mesmo tempo, observar a disseminação de memes e músicas na internet com referências a essas substâncias.
O psiquiatra e professor Paulo Roberto Telles Pires Dias, do Núcleo de Estudos em Uso de Drogas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, explica que fatores culturais e sociais estão diretamente ligados à maior propagação do consumo.
— Hoje, o que está se usando numa balada de São Paulo logo estará no Rio.
O patologista clínico e toxicologista Álvaro Pulchinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, destaca o aumento exponencial da variedade de drogas, impulsionado pelas inúmeras possibilidades de combinações químicas. Entre as principais apreensões registradas nas metrópoles, ele cita canabinoides sintéticos como K2 e SPICE, catinonas conhecidas como “sais de banho”, a “cocaína rosa”, opioides sintéticos como o fentanil e os chamados benzodiazepínicos de design.
Diante do desafio imposto por tamanha diversidade e pelos altos riscos de intoxicação, há quatro meses foi publicada a Primeira Norma de Toxicologia do Brasil para laboratórios.
— Esta é uma indústria extremamente lucrativa e complexa, com uma criatividade quase inesgotável — analisa Pulchinelli.
A tusi já levou à morte adolescentes na Europa e nos Estados Unidos. Entre os efeitos prejudiciais ao organismo estão o aumento das frequências cardíaca e respiratória e da pressão arterial. A superdosagem pode, inclusive, provocar infarto.
As apreensões de estimulantes do tipo anfetamina atingiram um recorde em 2023, segundo as Nações Unidas, e representaram quase metade de todas as apreensões globais de drogas sintéticas, seguidas pelos opioides sintéticos, incluindo o fentanil.
No Brasil, o governo federal lançará no início deste ano um levantamento relacionado a drogas sintéticas. O estudo é de autoria da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, do Ministério da Justiça e Segurança, que há poucos meses divulgou uma cartilha de prevenção e alerta sobre os nitazenos, opioides de alta potência.
De acordo com uma pesquisa da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas, os nitazenos podem ser até 20 vezes mais perigosos do que o fentanil, que é 50 vezes mais potente do que a heroína.
Bárbara Caballero, gestora de Estatística da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, relata que, em São Paulo, a substância foi identificada em um comprimido adulterado.
— A pessoa teria comprado um comprimido de MDMA para consumir, mas na verdade foi identificado um nitazeno — afirmou a especialista.















