Deputada empenhou R$ 122,9 milhões em 17 emendas no primeiro mandato; dos R$ 72,4 milhões que puderam ser identificados por município, quase R$ 60 milhões — 82,9% — foram destinados a Ananindeua, administrada por seu marido durante a maior parte do período analisado
A deputada federal Dra. Alessandra Haber empenhou aproximadamente R$ 122,9 milhões em 17 emendas individuais entre 2024 e 2026, durante seu primeiro mandato eletivo. Levantamento do Ver-o-Fato em bases oficiais, com o VOF Intelligence*, revela uma característica marcante na distribuição desses recursos: uma forte concentração em Ananindeua.
Dos R$ 72,4 milhões que puderam ser relacionados com segurança a municípios paraenses, aproximadamente R$ 60 milhões foram destinados a Ananindeua. O valor corresponde a 82,9% de todos os recursos municipalizados identificados pelo levantamento.
A concentração aumenta quando são observadas as transferências especiais, conhecidas como emendas PIX. Alessandra destinou R$ 55,16 milhões por meio dessa modalidade. Desse montante, cerca de R$ 49,83 milhões foram para Ananindeua.
O município foi administrado durante a maior parte do período analisado por Daniel Santos, marido da deputada. Ele deixou a Prefeitura em abril deste ano para concorrer ao Governo do Pará nas eleições de 2026.
A investigação avançou também sobre a finalidade das principais PIX. Documentos do Transferegov mostram que os quase R$ 50 milhões destinados a Ananindeua estão fortemente relacionados a pavimentação, recapeamento, drenagem, manutenção de vias e outras intervenções de infraestrutura urbana.

R$ 122,9 milhões em três anos
O levantamento identificou sete emendas em 2024, quatro em 2025 e seis em 2026.
Em 2024, foram empenhados R$ 37,87 milhões. Em 2025, o montante chegou a R$ 45,14 milhões e, em 2026, a aproximadamente R$ 39,88 milhões.
No total, são R$ 122.897.683,71.
Parte expressiva desse dinheiro está relacionada à saúde, com destinações para atenção básica, assistência hospitalar e outras ações do setor.
A prioridade pode ter relação com a própria trajetória profissional e política de Alessandra. Médica, ela construiu parte de sua atuação pública em temas relacionados à saúde, maternidade e políticas voltadas às mulheres.
Mas outro componente importante das emendas aparece na infraestrutura, especialmente quando são examinados os recursos enviados diretamente aos municípios por transferências especiais.
Cinco emendas PIX somam R$ 55,16 milhões
Das 17 emendas identificadas pelo Ver-o-Fato, cinco são transferências especiais, modalidade popularmente conhecida como emenda PIX.
Juntas, elas somam R$ 55.157.062,06, aproximadamente 44,9% de todo o valor empenhado pela deputada no período analisado.
As transferências foram realizadas em 2024, 2025 e 2026.
A análise dos registros do Transferegov permitiu identificar 14 planos de ação relacionados a essas cinco emendas e, em vários deles, descobrir exatamente o que os recursos deveriam financiar.
E é novamente Ananindeua que aparece com grande destaque.

Ananindeua fica com 82,9% dos recursos identificados por município
O Ver-o-Fato conseguiu relacionar com segurança R$ 72.402.329,06 das emendas a municípios específicos.
Ananindeua responde sozinha por R$ 59.997.079,06.
O segundo colocado está muito distante: Oriximiná, com aproximadamente R$ 1,995 milhão.
Depois aparecem Terra Santa, com R$ 1,5 milhão; Novo Repartimento, com R$ 1,485 milhão; e Castanhal, com R$ 1 milhão.
Também foram identificados recursos para Santana do Araguaia, Limoeiro do Ajuru, Muaná, São Félix do Xingu, Itupiranga, Xinguara, Ourém, Tucumã, Medicilândia, Altamira, Redenção, Rondon do Pará, São Sebastião da Boa Vista, Santa Maria das Barreiras, Anapu e Bonito.
Os R$ 72,4 milhões não representam todas as emendas da deputada. Há recursos que aparecem nas bases oficiais com localidades classificadas como “Múltiplo”, “Sem informação” ou em situações que não permitem atribuir o valor a uma cidade específica com segurança.
Nesses casos, o Ver-o-Fato não dividiu artificialmente os valores entre municípios.

| Município | Recursos identificados |
|---|---|
| Ananindeua | R$ 59.997.079,06 |
| Oriximiná | R$ 1.995.000,00 |
| Terra Santa | R$ 1.500.000,00 |
| Novo Repartimento | R$ 1.485.000,00 |
| Castanhal | R$ 1.000.000,00 |
| Santana do Araguaia | R$ 850.000,00 |
| Limoeiro do Ajuru | R$ 594.000,00 |
| Muaná | R$ 500.000,00 |
| São Félix do Xingu | R$ 500.000,00 |
| Itupiranga | R$ 495.000,00 |
| Xinguara | R$ 437.800,00 |
| Ourém | R$ 400.000,00 |
| Tucumã | R$ 400.000,00 |
| Medicilândia | R$ 351.450,00 |
| Altamira | R$ 300.000,00 |
| Redenção | R$ 300.000,00 |
| Rondon do Pará | R$ 300.000,00 |
| São Sebastião da Boa Vista | R$ 300.000,00 |
| Santa Maria das Barreiras | R$ 297.000,00 |
| Anapu | R$ 200.000,00 |
| Bonito | R$ 200.000,00 |
Fonte: levantamento Ver-o-Fato em bases oficiais. Valores territorializados com segurança, sem rateio artificial.
Quase R$ 50 milhões em PIX para obras em Ananindeua
O aprofundamento dos dados do Transferegov permitiu identificar os objetos das três grandes parcelas de transferências especiais destinadas a Ananindeua.
Somadas, elas chegam a R$ 49.828.083,06.
Em 2024, uma PIX de R$ 17.535.792 foi destinada ao município. O objeto registrado inclui serviços de terraplenagem, pavimentação e recapeamento asfáltico em vias dos bairros Águas Brancas, Águas Lindas e Icuí.
Os registros também mencionam manutenção, reconstrução e limpeza de dispositivos de drenagem, recomposição asfáltica e construção de uma praça entre as WE-67 e WE-68.
Em 2025, mais R$ 13.481.812,08 aparecem destinados a serviços de manutenção e conservação de pavimentos em vias urbanas de Ananindeua. O plano de trabalho consta como aprovado.
Em 2026, outra transferência destina R$ 18.810.478,98 a obras e serviços de pavimentação e qualificação viária na área urbana do município.
Os registros mostram, portanto, que praticamente todo o grande volume de PIX destinado a Ananindeua está concentrado em infraestrutura urbana, sobretudo pavimentação e sistema viário.

Ananindeua também foi onde Alessandra teve mais votos
A concentração dos recursos ganha relevância adicional quando confrontada com a trajetória política da deputada.
A eleição de 2022 foi a primeira disputa de Alessandra Haber por um cargo eletivo.
Ela recebeu 258.907 votos no Pará, dos quais 72.515 somente em Ananindeua. Nenhum outro município deu tantos votos à candidata.
Ananindeua foi, portanto, seu principal reduto eleitoral já em sua primeira eleição e posteriormente se tornou, durante o mandato, o principal destino municipal identificável de suas emendas.
Mas o levantamento mostra que essa coincidência entre votação expressiva e grande volume de recursos não se repete automaticamente nos demais municípios.
Belém, por exemplo, deu 28.007 votos a Alessandra e foi seu segundo maior resultado eleitoral, mas não aparece com recursos no mapa municipal fechado pelo Ver-o-Fato.
Cametá, onde a deputada recebeu 6.377 votos, e Marituba, com 5.842, também não aparecem entre os destinos com valores municipalizados no levantamento.
No sentido contrário, há cidades que receberam recursos mesmo com votação muito pequena para Alessandra em 2022.
Em Santana do Araguaia, onde ela recebeu apenas 5 votos, foram identificados aproximadamente R$ 850 mil.
Em Santa Maria das Barreiras, onde recebeu 6 votos, aparecem R$ 297 mil.
E Tucumã, onde Alessandra recebeu 9 votos, aparece com aproximadamente R$ 400 mil.
Os exemplos mostram que não é possível afirmar que as emendas tenham sido distribuídas pelo Pará simplesmente de acordo com a votação obtida pela parlamentar.
O que efetivamente se destaca é Ananindeua, que reúne ao mesmo tempo a maior votação da deputada e, por larga margem, a maior concentração dos recursos identificados.
| Município | Votos em 2022 | Recursos identificados |
|---|---|---|
| Ananindeua | 72.515 | R$ 59,997 milhões |
| Belém | 28.007 | R$ 0* |
| Cametá | 6.377 | R$ 0* |
| Marituba | 5.842 | R$ 0* |
| Santana do Araguaia | 5 | R$ 850 mil |
| Santa Maria das Barreiras | 6 | R$ 297 mil |
| Tucumã | 9 | R$ 400 mil |
* R$ 0 significa ausência de recursos atribuídos diretamente ao município no mapa territorial fechado pelo levantamento; não significa necessariamente inexistência de qualquer benefício indireto ou regional. Fonte: TSE e levantamento Ver-o-Fato.
Antes de ser deputada, Alessandra já atuava em Ananindeua
Embora 2022 tenha sido sua primeira eleição, Alessandra já possuía atuação pública em Ananindeua antes de se candidatar.
Na condição de primeira-dama, participou de iniciativas municipais, especialmente em áreas relacionadas à saúde, maternidade e políticas para mulheres.
Seu marido, Daniel Santos, comandava a Prefeitura.
Reeleito prefeito em 2024, Daniel deixou o cargo em 2 de abril de 2026, durante o segundo mandato, para disputar o Governo do Pará. Com a renúncia, o então vice-prefeito Hugo Atayde assumiu definitivamente a administração municipal.
Daniel Santos teve posteriormente sua candidatura ao Governo do Pará oficializada pelo Podemos.
O cenário eleitoral de 2026 coloca, assim, o casal em duas disputas: Daniel concorre ao Governo do Estado e Alessandra busca a reeleição para a Câmara dos Deputados.
O fato de Ananindeua ter sido o principal reduto eleitoral de Alessandra, ter sido administrada pelo marido durante a maior parte do período analisado e concentrar a maior parcela dos recursos identificados não demonstra, por si só, qualquer irregularidade.
A dimensão dessa concentração, entretanto, levou o Ver-o-Fato a questionar a deputada sobre quais critérios determinaram as destinações e qual foi a participação da Prefeitura, das secretarias municipais e do então prefeito na apresentação das demandas ao gabinete parlamentar.
Praça, ponte, ambulância e trator em outros municípios
Embora Ananindeua concentre a maior parcela dos recursos identificados, os documentos do Transferegov mostram objetos bastante diferentes nas transferências destinadas a outras regiões do Pará.
Em Novo Repartimento, R$ 1,485 milhão está relacionado à construção de uma praça de eventos no Distrito de Maracajá.
O projeto prevê uma área de aproximadamente 3,5 mil metros quadrados, com quadra poliesportiva, playground, academia ao ar livre, quiosques e espaços destinados a eventos e convivência.
Em Oriximiná, R$ 495 mil foram destinados à cobertura de uma quadra poliesportiva.
Em Itupiranga, outros R$ 495 mil aparecem para reforma de campo.
Medicilândia recebeu R$ 351,45 mil para aquisição de uma ambulância Tipo A.
Em Santa Maria das Barreiras, R$ 297 mil foram destinados à aquisição de trator e infraestrutura produtiva.
Já Limoeiro do Ajuru aparece com R$ 594 mil para construção de uma ponte em estrutura mista entre as comunidades rurais de Rio Tatuoca e Rio Mocons.
Em Xinguara, R$ 437,8 mil foram destinados à construção de uma praça pública no Distrito Rio Vermelho.
| Município | Valor | Objeto identificado |
|---|---|---|
| Novo Repartimento | R$ 1.485.000 | Praça de eventos no Distrito de Maracajá |
| Limoeiro do Ajuru | R$ 594.000 | Ponte entre as comunidades de Rio Tatuoca e Rio Mocons |
| Oriximiná | R$ 495.000 | Cobertura de quadra poliesportiva |
| Itupiranga | R$ 495.000 | Reforma de campo |
| Xinguara | R$ 437.800 | Praça pública no Distrito Rio Vermelho |
| Medicilândia | R$ 351.450 | Aquisição de ambulância Tipo A |
| Santa Maria das Barreiras | R$ 297.000 | Trator e infraestrutura produtiva |
Fonte: planos de ação recuperados no Transferegov pelo levantamento do Ver-o-Fato.
R$ 1 milhão para dois eventos esportivos
Duas transferências de 2024, no valor de R$ 500 mil cada, tiveram como beneficiário o Estado do Pará e como executor a Secretaria Executiva de Esporte e Lazer.
Uma aparece relacionada ao Torneio Regional de Caiaque no Rio Xingu.
A outra, à Copa dos 100 de Futsal.
Como os registros recuperados nesta etapa não permitem atribuir com segurança todo esse R$ 1 milhão a municípios específicos, os valores não foram incluídos artificialmente no mapa municipal.
Planos para Aurora do Pará aparecem como impedidos
Um caso encontrado no Transferegov foi tratado separadamente pelo Ver-o-Fato.
Na transferência especial de 2025 aparecem dois planos relacionados a Aurora do Pará, cada um no valor de R$ 396 mil.
Um deles descreve a construção de uma praça de alimentação no Distrito São Pedro, com estrutura voltada à gastronomia e ao turismo. O plano, entretanto, aparece no sistema como “IMPEDIDO”, enquanto o plano de trabalho constava como “Em Complementação” na consulta realizada.
Outro plano de R$ 396 mil, também relacionado à infraestrutura turística no município, igualmente aparece como “IMPEDIDO”.
Por isso, o Ver-o-Fato não apresenta esses R$ 792 mil como obras executadas.
Uma emenda de saúde ainda não permite fechar o valor pago
Outra ressalva envolve a emenda 202543630002, de 2025, destinada à atenção primária à saúde.
As bases utilizadas pelo levantamento registram aproximadamente R$ 15,74 milhões empenhados e R$ 14,44 milhões liquidados.
Já os documentos de pagamentos e favorecidos localizados até o fechamento permitiram rastrear aproximadamente R$ 9,72 milhões.
A diferença não significa que haja dinheiro desaparecido ou desviado. As bases oficiais consultadas possuem informações e estágios financeiros distintos e, até o fechamento da reportagem, não permitiram estabelecer com segurança o valor total efetivamente pago dessa emenda.
Por essa razão, o Ver-o-Fato manteve o caso sob revisão e não utilizou a diferença para fazer qualquer inferência de irregularidade.
Deputada não respondeu aos questionamentos
O Ver-o-Fato encaminhou à deputada Dra. Alessandra Haber e à sua assessoria, através do email oficial da Câmara Federal, 15 perguntas sobre os resultados do levantamento.
A parlamentar foi questionada sobre os critérios utilizados para escolher municípios e projetos, a concentração dos recursos em Ananindeua, o uso das emendas PIX, a origem das demandas encaminhadas ao gabinete e os mecanismos utilizados para acompanhar a aplicação do dinheiro.
O portal também perguntou se o resultado eleitoral obtido em cada município possui algum peso na distribuição das emendas.
Sobre Ananindeua, Alessandra foi questionada especificamente sobre os critérios que explicam a concentração de aproximadamente R$ 60 milhões no município e se a Prefeitura, suas secretarias ou Daniel Santos apresentaram formalmente demandas que deram origem às destinações.
Também foi perguntado se o fato de Ananindeua ter sido o principal município de sua primeira campanha eleitoral e ter sido administrado pelo marido durante a maior parte do período analisado teve algum peso, direto ou indireto, na definição das prioridades.
Até o fechamento desta reportagem, a deputada e sua assessoria não responderam às perguntas encaminhadas pelo Ver-o-Fato.
O espaço permanece aberto para manifestação. Caso a parlamentar envie posteriormente seus esclarecimentos, a reportagem será atualizada.
* VOF Intelligence é uma ferramenta de investigação e análise de dados desenvolvida pelo Ver-o-Fato para organizar, cruzar e conferir informações de diferentes bases públicas oficiais. Seu objetivo é ampliar a transparência e o controle social sobre o uso do dinheiro público, permitindo acompanhar o caminho dos recursos desde a origem até seus destinos e identificar relações, concentrações, divergências e outros elementos de interesse jornalístico. Entre suas aplicações está o rastreamento de emendas parlamentares, valores, municípios beneficiados, destinatários e demais informações relacionadas à aplicação de recursos públicos, sempre preservando a origem e a natureza de cada dado.














