O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), transformou-se em gargalo involuntário — ou talvez estratégico — da PEC que reduz a escala 6×1. Segundo seus interlocutores, o avanço da matéria depende de uma reunião com o presidente Lula para definir a agenda do Congresso, encontro que ainda não tem data marcada, complicando os planos do governo e irritando ainda o presidente Lula.
Enquanto isso, o texto aprovado pela Câmara em 27 de maio permanece travado, sequer despachado para a Comissão de Constituição e Justiça, presidida por Otto Alencar, aliado do Palácio do Planalto e disposto a avançar com a matéria como o governo planejou.
Mas Alencar está refém de Alcolumbre: só pode agir após o despacho da pauta. O cenário revela uma dinâmica política complexa. Alcolumbre desmarcou tanto a reunião com líderes para definir o rito quanto o encontro com Alencar para escolher o relator.
Trata-se de uma paralisia que não é acidental. O governo, que trata a medida como bandeira eleitoral central para a reeleição de Lula, enfrenta agora o dilema do calendário: a PEC prevê implementação 60 dias após promulgação, e o governo contava com aprovação antes do recesso de 19 de julho para que os eleitores sentissem os efeitos da mudança no primeiro turno de outubro.
A tática de Alcolumbre — condicionar o avanço a uma conversa com Lula que não está agendada — expõe a fragilidade da governabilidade legislativa e a capacidade de um único ator institucional paralisar uma agenda que o próprio governo considera prioritária.
Aldo Rebelo volta ao jogo político pela porta da Justiça
A suspensão judicial da expulsão de Aldo Rebelo do DC (Democracia Cristã) recoloca o ex-ministro no tabuleiro presidencial, ainda que de forma precária. O presidente do partido, João Caldas, havia decidido expulsá-lo para abrir caminho a Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF.
Rebelo, porém, recusou-se a sair silenciosamente e acionou a Justiça. A 6ª Vara Cível de Brasília determinou a reintegração em 72 horas, sob pena de multa. A decisão transfere a definição sobre o candidato presidencial para a convenção de julho — um adiamento que beneficia Rebelo, que segue em pré-campanha viajando o Brasil com recursos próprios. Ele fez uma conferência à convite do Sindicato Rural de Redenção, no Sul do Pará, no final da semana passada, sendo ovacionado ao fim da palestra.
O episódio com Rebelo ilustra a fragilidade dos processos internos partidários quando confrontados com a Justiça. Barbosa, por sua vez, ainda não confirmou se aceitará o convite. O que estava resolvido administrativamente tornou-se incerto judicialmente, revelando as tensões dentro de uma legenda que busca relevância no cenário presidencial. Nas últimas pesquisas, Aldo Rebelo obtem 1 ponto percentual da intenções de votos.
O impasse da delação de Vorcaro e os limites da negociação institucional
A situação de Daniel Vorcaro, dono do Master, ilustra um dilema recorrente nas negociações de delação premiada: quando a moeda de troca não convence os atores institucionais.
O ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, estabeleceu uma condição clara para prosseguir — a participação direta da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República nas tratativas.
Trata-se de uma postura que, embora formalmente justificável, revela a fragilidade da proposta apresentada pela defesa do ex-banqueiro.
A PF já sinalizou ceticismo, argumentando que a segunda versão da delação não trouxe novidades substanciais. A PGR, por sua vez, ainda avalia o material, mas também aponta a falta de evidências robustas.
O cenário que se desenha é de pessimismo na defesa de Vorcaro: há risco real de transferência para um presídio comum como a Papuda, caso o acordo não se concretize.
Neste contexto, a negociação não é apenas jurídica — é política, na medida em que depende da avaliação institucional sobre o valor informativo do acusado.
A batalha legislativa sobre jornada de trabalho revela divisões profundas
Duas visões antagônicas sobre o futuro do trabalho no Brasil competem agora no Senado. A PEC que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais e extingue a escala 6×1, aprovada na Câmara, enfrenta uma alternativa articulada pelo senador Rogério Marinho: a PEC do Trabalho Flexível.
Enquanto a primeira proposta busca proteção mais rígida ao trabalhador, a segunda aprofunda a lógica de flexibilização iniciada na Reforma Trabalhista de 2017, incentivando contratos por hora e prevalência de acordos individuais sobre coletivos.
O contraste é fundamental: a PEC de Marinho não altera formalmente o teto de 44 horas semanais, mas muda radicalmente o mecanismo de negociação, transferindo poder do sindicato para o empregador, o que tecnicamente seria um avanço rumo às práticas dos países mais desenvolvidos do Mundo.
Os números revelam a realidade: em 2025, apenas 517 mil contratos intermitentes existiam entre 45 milhões de vínculos, com 60% deles sem atividade. Especialistas divergem sobre as consequências. Enquanto defensores apontam maior formalização, críticos argumentam que a maioria dos trabalhadores — especialmente os de baixa escolaridade — possui pouca capacidade de negociação individual.
A decisão do Senado não é meramente técnica; é uma escolha sobre o equilíbrio de forças entre capital e trabalho.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
Esta Coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Portal Ver-o-Fato, e é responsabilidade de seu titular.















