Nomeação ao STF expõe ruptura política, disputa por controle da pauta e cálculo eleitoral de olho em 2026
Brasília – O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), passou a considerar a possibilidade de retardar a análise da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), após um desgaste político com o Palácio do Planalto provocado pelo anúncio feito por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sem aviso prévio ao chefe da Casa. A nomeação, enviada ao Senado nesta quarta-feira, 1º, ocorre em meio a uma disputa de bastidores.
O ponto de atrito começou quando Lula anunciou, durante reunião ministerial, que enviaria o nome de Messias ao Senado sem ter comunicado antes o presidente da Casa, algo que Alcolumbre teria interpretado como descortesia.
Segundo interlocutores, a praxe política seria justamente o contrário: avisar o presidente do Senado antes de tornar pública a decisão. O governo, por sua vez, atribuiu o envio da documentação apenas a questões burocráticas, negando que tenha havido tentativa de conter o mal-estar.
Em declaração à TV Cidade do Ceará, Lula reforçou a importância da sustentação política no Senado ao dizer que o senador com mandato de oito anos “pensa que é Deus” e pode “criar muito problema” para quem não tiver base de apoio na Casa.
Embora a fala não tenha sido dirigida nominalmente a Alcolumbre, a leitura política no Congresso foi de que o presidente buscava enfatizar a necessidade de maioria para aprovar Messias e, ao mesmo tempo, sinalizar a dificuldade de uma votação sem articulação sólida.
Formalidades
A indicação de Messias depende de dois passos formais: sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e aprovação no plenário, onde são necessários ao menos 41 votos entre os 81 senadores.
Cabe ao presidente do Senado pautar a votação, o que dá a Alcolumbre papel central no ritmo da tramitação. Em conversas reservadas, o senador teria falado em “desarticulação” política do Planalto no Senado, lembrando ainda que está rompido desde o ano passado com o líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT-BA).
O contexto político aponta também para um ambiente interno de fragilidade do governo no Congresso. O Planalto enxerga dificuldades adicionais porque dois de seus principais articuladores, os ministros Gleisi Hoffmann e Rui Costa, estariam de saída para disputar eleições.
Ainda assim, a avaliação governista é de que o cenário para Messias estaria melhorando e de que uma votação mais cedo seria preferível, antes que a pauta seja contaminada pela proximidade do calendário eleitoral e pela ameaça de delação premiada de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Uma disputa anterior envolve Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Senado. De acordo com a apuração, Alcolumbre trabalhou para levar Pacheco à vaga deixada por Luís Roberto Barroso no STF, mas Lula optou por Messias. Agora, Pacheco deixou o PSD e se filiou, nesta quarta-feira, ao PSB para disputar o governo de Minas Gerais com apoio do presidente da República.
Em março, Alcolumbre teria conversado ao menos duas vezes com Lula por telefone, mas afirmou que não havia sido combinado o dia exato do envio da indicação.
Nesse ambiente de tensão, Alcolumbre passou a sustentar que a indicação de Messias corre risco de rejeição. O motivo seria a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL), que, segundo fontes, trabalha para organizar a oposição e buscar uma derrota tanto para Lula quanto para o STF.
A disputa, portanto, não aparece apenas como um embate entre governo e Senado, mas também como uma peça da correlação de forças em torno da sucessão presidencial e da capacidade de mobilização da oposição.
PL não apoiará Alcolumbre em 2027
Acrescente-se a isso uma camada de cálculo político de médio prazo. Em entrevista ao portal Metrópoles, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que será “difícil” a reeleição de Alcolumbre à presidência do Senado em 2027.
Segundo ele, se Flávio Bolsonaro vencer a disputa presidencial, o PL não deverá repetir o apoio dado ao atual presidente do Senado em 2025 e deve lançar nomes próprios para o comando do Senado e da Câmara.
Costa Neto também relaciona essa projeção ao fato de Alcolumbre, em sua avaliação, enfrentar “muitos problemas” e não estar lidando com o Caso Master.
Nos bastidores, apurou o Ver-o-Fato, o comportamento errático de Alcolumbre envolve sua própria carreira política. Ele está mal nas pesquisas para reeleição no Amapá. Seu principal adversário Dr. Furlan, lidera a corrida. São duas vagas e o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), também está com a “corda no pescoço”, por fadiga de material de um parlamentar medíocre.
No conjunto, a indicação de Jorge Messias ao STF transcende uma simples nomeação jurídica. O episódio revela desgaste entre Executivo e Senado, disputa por influência sobre a pauta legislativa, reorganização de alianças partidárias e antecipação de movimentos eleitorais de 2026 e 2027.
A tramitação de Messias passa, assim, a depender não apenas dos requisitos formais da sabatina e da votação, mas também da capacidade do Planalto de recompor pontes com Alcolumbre e de assegurar maioria num ambiente politicamente sensível.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















