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Home Cultura

A revista de nus femininos aceitou conto erótico de Cláudio Barradas

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
27/08/2026
in Cultura
A revista de nus femininos aceitou conto erótico de Cláudio Barradas
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Os três livros de Cláudio Barradas premiados pela Academia Paraense de Letras, “Restos de Insônia”, “Trovador de Deus” e “Rua do Flautista”, permaneceram inéditos. 

Mas, seus textos originais foram guardados pelo ator, como ele revelou em 2004, na entrevista que concedeu a uma equipe de pesquisadores da História do Cinema na Amazônia, da UFPa.

A primeira parte desta entrevista, Ver-o-Fato publicou, há poucos dias. 

Agora, vamos divulgar sua parte final.

Nela, Barradas falou de dois contos seus que foram publicados. 

Um, pelo Ministério da Educação e Cultura, outro, pela Revista Status. 

E, de um terceiro conto, enviado por ele para um concurso da Revista Manchete.

A revelação da mídia para a qual ele enviou seu segundo conto publicado, assim como a aceitação dele pela Status, poderiam ter, inicialmente, surpreendido a equipe que o entrevistou. 

Devido à religiosidade que iria guiar o futuro de Barradas. 

Mas, não surpreendeu. 

Porque pareceram fatos perfeitamente afinados com a liberdade comportamental típica da arte dramática, o teatro, à qual ficou definitivamente associada a atuação de Barradas, em Belém. 

A visão de erotismo que, no final da entrevista, ele revelou, mostrou isto claramente.  

A Status foi uma publicação dirigida a um público adulto masculino, que circulou nacionalmente, durante a Ditadura Militar.

Havia sido criada pela Editora Três, de São Paulo, e, alcançou tiragem de 100 mil exemplares.

Sua editora foi a mesma que lançou também a Isto É, para concorrer com a Veja, da Editora Abril. 

E, a Planeta, espécie de porta-voz do movimento de renovação intelectual-literária chamado RealismoFantástico. 

Em seu conteúdo, a revista juntava a fotos sofisticadas de nus femininos, grandes reportagens e textos de bom nível intelectual.

Porque visava leitores cujo perfil era definido como o de homens cosmopolitas, globalizados, seguros, que buscavam informações e entretenimentos, livres das regras dos manuais conservadores de conduta, da época.

Status se orgulhava de ter enfrentado, durante 13 anos do período de sua circulação, a tesoura afiada da censura prévia da Polícia Federal, sem ter desistido de publicar fotos ousadas e textos inteligentes.

A seguir, a parte final desta entrevista de Cláudio Barradas. 

Vamos começar falando do seu conto publicado pelo Ministério da Educação e Cultura. O que nos diz sobre ele?

O conto tinha por título “Aimé, as minhas últimas”. 

É a história de um funcionário público de ínfima categoria que tinha lido numa revista, como eu tinha lido, na vida real, as últimas frases pronunciadas por gente famosa, antes da chegada da morte.

Como Nero, que disse: 

“Que grande artista perde a humanidade!”. 

Goethe teria dito: 

“Mais luz!”. 

E, por aí vai. 

Aquele homem, que era ninguém, um zero na vida, então, resolve que, pelo menos, concluiria sua existência, dizendo uma frase marcante. 

Assim, escreve muitas frases num papel, mas não gosta de nenhuma delas. 

Ele pergunta a si mesmo: 

“O que vou fazer?” 

Um dia, passa por uma livraria, e percebe, ali, um dicionário de citações de frases de gente famosa. 

Não tem, porém, um tostão sequer para comprar o livro. 

Depois de muito tempo, por fim, consegue roubá-lo. 

Leva-o para sua casa, lê-o e escolhe duzentas frases. 

Coloca as frases, escritas em tiras de papel, dentro de uma cuia. 

Remexe os papéis e tira a frase que iria pronunciar. 

Era uma frase do Guimarães Rosa: 

“A gente morre para provar que viveu”.

Como ele não sabia como ia morrer, imaginou, então, mil e uma possibilidades. 

Para cada possibilidade, ensaiou um modo de dizer a frase. 

Por sorte, ou por azar, quando já está com a frase pronta, ele sai um dia do seu local de trabalho, na hora do almoço. E foi atropelado. 

O atropelamento juntou muita gente, veio uma ambulância socorrê-lo. 

Ele, cercado de gente, mas já instalado na ambulância, percebe que vai morrer e, portanto, tem de dizer a frase do Guimarães Rosa. 

Quando a frase já vem subindo pela sua garganta, o que, no entanto, sai da boca dele é uma golfada de sangue. 

E aquilo que os olhos deles dizem, para quem consegue lê-los, é: 

“Estou fudido!”.    

O conto na revista de nus femininos

Agora nos fale do conto publicado pela Revista Status. De que ele tratava?

Quando fiz um filme do Líbero Luxardo, rodado no Marajó, me empolguei com a ilha. E escrevi um conto: “A Ilha dos Quinze”. 

Esta ilha é, na verdade, uma parte da Fazenda Livramento, numa área que permanece seca, quando há enchente.

O conto tinha uma narrativa semelhante à de Guimarães Rosa, em “Grande Sertão, Veredas”. 

Nele, só o narrador fala. 

O narrador leva um médico para examinar um garoto que está à morte.

Enquanto os dois caminham pela fazenda, o médico vai mostrando seu deslumbramento com as aves e com os vários tipos de capins. 

Porque o narrador conta a história de uma árvore, num momento. 

Depois, fala de um caboclo. Diz que ele, no passado, havia roubado uma menina e ficara fazendo sexo com ela, durante quinze dias e quinze noites, num jirau na Ilha dos Quinze. 

A menina engravidou, e, assim, nasceu um menino. 

À certa altura, quando os dois já estão chegando à fazenda, o narrador se identifica ao médico. 

Diz: 

“Doutor, esta história do caboclo é verdadeira.  O caboclo sou eu, e, o filho dele é este menino que o senhor vai ver”. 

A narrativa acaba assim: 

“Poeira, pós, nada, fim”. 

Mandei este conto para um concurso da Revista Status. 

E ele foi selecionado para publicação num número da revista em que foram publicados a contos eróticos.

Mas não era um conto erótico convencional, vulgar.   

Na sua criação literária houve, então, influência de Guimarães Rosa?

Houve um tempo em que eu gostava de inventar palavras. 

Por exemplo, como já tinha usado “veado”, “fresco”, “baitolo”, inventei “feminomem”, isto é, homem/mulher. 

Usei esta palavra Feminomem como título de um conto. 

Nele, havia frases minhas que você só conseguiria entender dentro do contexto original do conto. 

Mandei “Feminomem” para um concurso, no Rio de Janeiro. 

Algum tempo depois, a Manchete, na época, uma revista importante, publicou uma enorme matéria sobre o concurso. 

A matéria trazia uma entrevista com um dos membros do júri, o escritor Raimundo Magalhães Júnior. 

Na sua entrevista, o escritor revelava que tinha aparecido um conto genial, no concurso. 

Em seguida, o Raimundo Magalhães revelou que não havia escolhido aquele conto para receber o prêmio por ele ser um pastiche dos textos do Guimarães Rosa. 

O conto mencionado pelo escritor era, obviamente, o meu. 

Mas, para mim, já foi uma grande honra saber que o Raimundo Magalhães considerava o meu conto um pastiche de Guimarães Rosa.

O livro que os acadêmicos de Belém não aceitaram 

Fale mais deste conto elogiado de modo contraditório pelo jornalista, poeta, biógrafo, historiador e teatrólogo Raimundo Magalhães.

Vou falar dos aspectos que achava os mais belos nele. 

No Marajó, eu tinha conhecido um velho, com mais de setenta anos de idade, que havia, no passado, construído a casa grande da Fazenda Livramento. 

Na fazenda, eu andava com uma caderneta, fazendo anotações para a minha pesquisa de linguagem. 

Por causa disto, tinha ficado com bom prestígio junto à caboclada. 

Como as palavras que tinham mais sinônimos, no vocabulário daquele lugar, eram as eróticas, havia quem pensasse que a minha caderneta era usada para anotar sacanagens.  

O velho me chamava de “doutor”. Ele me dizia: 

“Fiz esta casa grande, com estas mãos calejadas. Nela, não entro. E, não tenho onde morar”. 

E acrescentava a frase de que eu gostava: 

“O meu consolo é que adonde o homem não vai, o seu grito chega”. 

Com uma outra frase, feita de anacolutos, o velho definia a vida: 

“A vida semos nós mermos, que andemos sobre a quar”. 

Estas duas frases, que não eram minhas, eu as coloquei no conto. 

E havia muitas palavras que eu inventava, como fazia Guimarães Rosa.

Cláudio, o que você fez com seus contos?

Eu os juntei num livro que também nunca foi publicado, intitulado “Bichomem”, ou seja, “Bicho homem”. 

Neste livro, eu queria mostrar o lado animalesco do ser humano. 

Inscrevi-o, também, num concurso da Academia Paraense de Letras, quando faltava apenas um dia para as inscrições se encerrarem. 

Naquele dia, eu tinha encontrado o acadêmico Cândido Marinho da Rocha, no Café Central. 

Como nós nos dávamos bem, entreguei a ele os meus originais. 

Passaram-se meses, e, o resultado do concurso não era divulgado. 

Até que um dia, leio, em “O Liberal”, que os meus contos sequer tinham sido avaliados pelos membros da banca julgadora porque eram apelativos e imorais. 

Na verdade, meus contos eram eróticos, sim, porque o erotismo faz parte da vida. 

Mas, segundo minha autocrítica, não eram apelativos, nem imorais. 

Com isto, parei de escrever durante bastante tempo. 

Bem depois é que voltei a produzir textos. 

Mas aquilo foi marcante para mim.

(Ilustração: Cláudio Barradas)

A magazine featuring female nudes accepted

an erotic short story by Cláudio Barradas.

Although Barradas had three books awarded by theAcademia Paraense de Letras — Restos de Insônia, Trovador de Deus, and Rua do Flautista — theyremained unpublished. 

He revealed in a 2004 interview with researchers fromUFPa’s History of Cinema in the Amazon project thathe had preserved the original manuscripts.

In the final part of this interview, Barradas discussedtwo of his short stories that were published: one by theMinistry of Education and Culture, and another byRevista Status. 

A third was submitted to a contest held by Revista Manchete.

The fact that Status — a men’s magazine known for sophisticated nude photography alongside intellectualarticles — accepted his work might have seemedsurprising, given the religiosity that later guided his life. 

Yet, it aligned with the artistic freedom of theater, towhich Barradas was deeply connected in Belém.

This is because they seemed like facts perfectly in tune with the behavioral freedom typical of the dramatic arts—specifically theater—with which Barradas’s actingcareer in Belém became definitively associated.

The perspective on eroticism he revealed at the end ofthe interview clearly demonstrated this.

Status was a publication aimed at an adult male audience that circulated nationwide during the Military Dictatorship.

It was created by Editora Três, based in São Paulo, andreached a circulation of 100,000 copies.

The same publisher also launched IstoÉ to compete with Veja (from Editora Abril).

And Planeta, a publication that served as a sort ofmouthpiece for the intellectual-literary renewalmovement known as Fantastic Realism.

Its content combined sophisticated photos of femalenudes with in-depth features and high-qualityintellectual writing.

It targeted readers defined as cosmopolitan, globalized, and self-assured men who sought information andentertainment free from the conservative codes ofconduct prevalent at the time.

Status took pride in having withstood the sharp shearsof Federal Police prior censorship throughout its thirteen-year run, without ever giving up on publishingdaring photos and intelligent writing.

Below is the final part of this interview with Cláudio Barradas.

Let’s start by talking about the short story of yourspublished by the Ministry of Education and Culture. What can you tell us about it?

The short story was titled “Aimé, My Last Words.”

It is the story of a low-level civil servant who had readin a magazine—just as I had in real life—the final words spoken by famous people before death arrived.

Like Nero, who said:

“What a great artist the world is losing!”

Goethe reportedly said:

“More light!”

And so on.

That man—a nobody, a zero in life—decides that hewill at least conclude his existence by uttering a memorable phrase.

So, he writes down many phrases on paper but isn’tsatisfied with any of them.

He asks himself:

“What shall I do?”

One day, he passes a bookstore and spots a dictionaryof famous quotations.

However, he doesn’t have a single penny to buy thebook.

After a long time, he finally manages to steal it.

He takes it home, reads it, and selects two hundredphrases.

He places the phrases—written on strips of paper—inside a gourd.

He mixes up the papers and draws the phrase he intendsto speak.

It was a line by Guimarães Rosa:

“We die to prove we lived.”

Since he didn’t know how he would die, he imagined a thousand and one possibilities.

For each possibility, he rehearsed a way of saying thephrase.

By luck—or perhaps bad luck—just as he has thephrase ready, he leaves work one day during his lunchbreak. And he gets run over.

The accident draws a crowd, and an ambulance arrivesto help him.

Surrounded by people but already inside the ambulance, he realizes he is dying and must, therefore, say theGuimarães Rosa line.

Just as the phrase is rising up his throat, however, whatactually comes out of his mouth is a gush of blood. Andwhat their eyes say, to anyone who can read them, is:

“I’m fucked!”

The short story in the nude magazine

Now, tell us about the short story published by *Status* magazine. What was it about?

When I was working on a film by Líbero Luxardo, shot on Marajó Island, I became fascinated by the island. So, I wrote a short story: “A Ilha dos Quinze” [The Islandof the Fifteen].

This island is actually part of the Livramento Ranch, situated on a patch of land that remains dry even duringfloods.

The story’s narrative style resembled that of Guimarães Rosa in *Grande Sertão: Veredas* [The Devil to Pay in the Backlands].

In it, only the narrator speaks.

The narrator is taking a doctor to examine a boy who ison his deathbed.

As the two walk across the ranch, the doctor expresses his awe at the birds and the various types of grasses.

At one point, the narrator tells the story of a tree.

Then, he speaks of a *caboclo* [a rural man of mixedindigenous and European heritage]. He recounts how, in the past, the man had abducted a girl and had sex withher for fifteen days and fifteen nights on a raisedplatform on the Island of the Fifteen.

The girl became pregnant, and a boy was born.

At a certain point, as they are nearing the ranch, thenarrator reveals his identity to the doctor.

He says:

“Doctor, this story about the *caboclo* is true. I am that*caboclo*, and his son is the boy you are about to see.”

The narrative ends like this:

“Dust, powder, nothing, the end.”

I submitted this story to a contest held by *Status* magazine.

It was selected for publication in an issue of themagazine that featured erotic short stories.

But it wasn’t a conventional, vulgar erotic story.

So, was there an influence from Guimarães Rosa onyour literary work?

There was a time when I liked to invent words.

For instance, since I had already used terms like *veado*, *fresco*, and *baitolo* [slang terms for gay men], I coined *feminomem*—that is, a man-womanhybrid. I used the word “Feminomem” as the title of a short story.

It contained phrases of mine that could only beunderstood within the story’s original context.

I submitted “Feminomem” to a contest in Rio de Janeiro.

Some time later, *Manchete*—a major magazine at thetime—published a lengthy article about the contest.

The article featured an interview with one of the jurymembers, the writer Raimundo Magalhães Júnior.

In the interview, he revealed that a brilliant short story had appeared in the contest.

Raimundo Magalhães went on to explain, however, thathe had not chosen that story for the prize because it wasa pastiche of Guimarães Rosa’s writing.

The story the writer mentioned was, of course, mine.

Yet, for me, it was a great honor to know that Raimundo Magalhães considered my story a pastiche ofGuimarães Rosa.

The book that the academics of Belém rejected

Tell us more about this short story—one that receivedmixed praise from the journalist, poet, biographer, historian, and playwright Raimundo Magalhães.

I’ll talk about the aspects of it I found most beautiful.

In Marajó, I had met an old man—over seventy yearsold—who had, in the past, built the main house of theLivramento Ranch.

While at the ranch, I used to walk around with a notebook, jotting down notes for my linguistic research.

Because of this, I had gained a good reputation amongthe local *caboclos*.

Since the words with the most synonyms in the local vocabulary were erotic ones, some people thought I wasusing my notebook to write down dirty talk.

The old man called me “Doctor.” He would tell me:

“I built this main house with these calloused hands. YetI don’t go inside it. And I have nowhere to live.”

And he would add a phrase I really liked:

“My consolation is that even where a man cannot go, his cry reaches.”

With another phrase—full of anacoluthons—the oldman defined life:

“Life is us ourselves, walking upon the earth.”

I included those two phrases—which weren’t mine—in the short story.

And there were many words I invented, just as Guimarães Rosa used to do.

Cláudio, what did you do with your short stories?

I gathered them into a book that was also neverpublished, titled *Bichomem*—that is, “Beast-Man.”

In this book, I wanted to show the animalistic side ofhuman beings.

I also entered it into a contest held by the Pará Academy of Letters, with only one day left before thesubmission deadline.

That day, I had run into the academic Cândido Marinho da Rocha at the Café Central. Since we got along well, I handed him my original manuscripts.

Months went by, yet the contest results were notannounced.

Then one day, I read in *O Liberal* that my short stories hadn’t even been evaluated by the jury membersbecause they were deemed sensationalist and immoral.

In truth, my stories were indeed erotic—becauseeroticism is part of life.

But, by my own assessment, they were neithersensationalist nor immoral.

As a result, I stopped writing for quite some time.

It was only much later that I returned to writing.

But that experience left a deep mark on me.

(Illustration: Cláudio Barradas)

Tags: Cláudio BarradascolunaculturaDestaqueHistória
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Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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