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Home Cultura

A Rainha da Amazônia, Ana Jansen, admirada e odiada

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
08/07/2026
in Cultura
A Rainha da Amazônia, Ana Jansen, admirada e odiada
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Embora exista incerteza quanto a data exata do nascimento de Ana Jansen, é inquestionável que, quando ela nasceu, em São Luís, o Grão-Pará e o Maranhão ainda compunham um único Estado, dentro do reino de Portugal, o Grão-Pará/Maranhão. 

Portanto, tenha ela nascido em 1797, como querem alguns, ou, 1798,como querem outros, Ana, de qualquer modo, já teria mais de 20 anos de idade, quando o Grão-Pará/Maranhão desapareceu.

Só em 1823, o Estado passou a ser parte do Brasil, a outra colônia portuguesa, aquela que tinha se declarado independente de Portugal, no ano anterior.

Portanto, se Ana foi a Rainha do Maranhão, de acordo com o título dado não oficialmente a ela, em alguma medida, ela foi também Rainha do Grão-Pará.

Embora seja São Luis a cidade onde, até hoje, a lembrança do seu nomeé guardada. 

Pois, lá, há uma Avenida Ana Jansen, uma lagoa, com o mesmo nome, e, o casarão onde ela morou. 

E onde, entre a população de uma cidade, circulam várias histórias fantásticas a respeito dela. 

A mais recorrente destas histórias é a da carruagem encantada. 

O veículo que teria sido usado por Ana percorreria, à noite, as ruas de São Luís, conduzida por cavalo e cocheiro, ambos decapitados.

Lendas como estas  atrapalham a busca de precisão na resposta a perguntas, sempre persistentes, que surgem, na reconstituição da vida dessa mulher, apesar disto, já incorporada à História da Cultura da Amazônia.

Sob dupla versão. Na que lhe dão as lendas, e, na obtida pelos pesquisadores de História.

Assim, de um lado, é verdade, as lendas ajudam a manter o interesse por este que é um assunto do passado da Amazônia.

Com este propósito, em 2007, o Banco do Nordeste do Brasil, através do seu Programa BNB de Cultura, distribuiu gratuitamente, pelas escolas públicas de São Luís, uma revista em quadrinhos, criada pelo arte-educador Beto Nicácio, sobre a lenda da sua carruagem encantada.

De outro lado, no entanto, são os dados fictícios de lendas como esta, que, ao se misturarem com os dados extraídos de pesquisas feitas com rigor, complicam a busca de respostas amplas e precisas sobre Ana.

Não surpreende, assim, que exista insegurança até quanto à definição da data do nascimento dela.

Exatidão existe apenas na fixação da data da morte de Ana: 11 de abril de 1869, quando ela já teria cerca de 70 anos de idade.

As confusões quanto ao que é verdade histórica no caso de Ana Jansen poderiam ter sido afastadas por duas fontes impressas, os jornais “O Cometa” e “Guajajaras”.

Ambos circularam em São Luís no período em que Ana viveu.

Infelizmente, estas publicações não prestaram este serviço porque as informações que registraram sobre Ana e sua família são evidentemente distorcidas por exageros, o que compromete a credibilidade dos dois jornais. 

Isto ocorreu por um motivo simples. 

O “Guajajaras” pertencia à Ana Jansen. 

“O Cometa” era propriedade dos inimigos dela.  

Em 1840, por exemplo, os dois jornais digladiaram. 

“O Cometa” se referiu aos Jansen como “ladrões, assassinos, bêbados, e, cruéis”. 

Em represália, o redator deste jornal, responsável por aquele textoagressivo, foi tratado pelo “Guajajaras”, como “moleque, rato do Tesouro, bajulador, safado, encrenqueiro”.

Esta troca de insultos, em termos tão agressivos, foi reconstituída por Lucimar Carvalho Souza,  no estudo “Os Pasquins de São Luís, na Primeira Metade do Século XIX”.

Segundo a pesquisadora a gravidade da troca de ofensas exprimia, com contudência, a dimensão dos conflitos existentes entre os interesses políticos e econômicos alimentados por Ana e seus familiares e os interesses de seus inimigos públicos.

Como a polêmica era mantida exclusivamente com o objetivo de destruir rivais, carecia de qualquer preocupação com a verdade.

Outra dificuldade, detectada pelos pesquisadores, para quem quer discernir o que é verdade nas informações sobre Ana é a mitificação criada em torno de sua figura.

Ana é mitificada para que sua história sirva como bandeira nas lutas em defesas de causas sociais. 

O curioso é que, conquanto estas lutas sejam travadas por grupos que defendem direitos humanos básicos, há, entre eles, visões opostas de Ana.

Ana feminista versus Ana escravocrata

Para alguns grupos, ligados à defesa dos direitos das mulheres, Ana Jansen é um exemplo de bravura feminina, na luta por reconhecimento da igualdade entre sexos, num período de grande machismo. 

A historiadora Elizabeth Arantes é uma das duas autoras do livro ‘A Senhora do Maranhão: uma biografia de Ana Jansen’.

Por ocasião do lançamento desta obra, ela destacou, os seguintes méritos de Ana:

“Ana Jansen adentrou em espaços que tradicionalmente eram negados às mulheres do seu tempo, se destacou como grande proprietária que administrava diretamente seus negócios, se envolveu nas disputas políticas da província. E, teve um comportamento que não se enquadrava nos padrões normativos da época”.

Com a mesma perspectiva, outros grupos veem em Ana uma visionária, fundadora de um jornal  baratíssimo que lançava em plena São Luís a centelha da liberação da mulher.

Alana Souza, por exemplo, diz, no artigo “Lenda urbana: O mito maranhense de Ana Jansen”, publicado na revista Aventuras na História:

“Ana Jansen, também conhecida como Donana, foi uma mulher a frente de seu tempo. Muito se especula sobre sua vida, mas a importância,como mulher no século 19, está, até hoje, marcada na história do Brasil Império”.

Num sentido oposto, grupos igualmente comprometidos com causas sociais, mas voltados para o combate ao trabalho escravo, apresentam Ana como exemplo das crueldades praticadas pela classe dominante do Maranhão, daquele período. 

Ela, então, é transformada numa personagem muito má. Mulher rígida em seus conceitos que, contrariados, levavam-na a praticar atrocidade contra seus empregados e desafetos políticos.

Um escravo, quando desobedecia às suas ordens, ela supostamentesubmetia-o a toda sorte de suplício, como o de jogá-lo num poço profundos cheio de ferros potiagudos, em seu fundo. 

Exemplo típico de um representante destes grupos, o jornalista Rafael Custódio, publicou, na revista da Agência Pública, um texto, com o seguinte título:

“Ana Jansen: Lenda de terror, magnata que escravizou 800 negros batiza cartão postal no MA”.

No texto ele afirma que a matriarca lendária do Maranhão, no século 19,era uma das mulheres mais ricas do estado.  

Tinha tal poder econômico que chegou a financiar o Exército Imperial contra revoltas populares que eclodiram pelo Brasil. 

Adiante, Rafael acrescenta que ela queria ser a Baronesa de Santo Antônio, para obter lucro com prestígio político e acesso à corte brasileiras.

Ele escreve que para justificar seu pedido de título de baronesa, Anainvocou o fato de possuir mais de 800 escravos. 

No interior de seu texto, foi inserida a seguinte advertância:

“O processo de revisão dos nomes de ruas, escolas e outros ambientes públicos já passou pelo escrutínio público no que diz respeito a figuras da ditadura. Mas ainda falha no que diz respeito a personagem reconhecidamente promotores de violações aos direitos humanos”

Existe ainda um terceiro grupo de pessoas, para as quais as visões contrastantes de Ana Jansen, como uma lutadora feminista e como dona de escravos perversa, fazem dela uma figura, sem dúvida,contraditóriamente amada e repulsiva. Porém, exatamente por causa disto, fascinante. Mais interessante do que ela seria se tivesse sido somente uma matrona convencional de seu tempo.  

Para Eudes Lima, num artigo intitulado “As Casas de Ana Janse”, Ana é uma “personagem enigmático e dual da nossa História e Cultura”.

Ele indaga:

Ana não seria apenas uma mulher de carne e osso que veio de origem humilde, marginalizada e que conseguiu vencer todas as adversidades que a vida lhe impôs, tornando-se uma mulher de sucesso, rica, poderosa e respeitada pela sociedade patriarcal, escravista e provinciana da São Luís oitocentista, e, que, por isto mesmo, foi muito combatida, numa época em que não cabia às mulheres rivalizarem com os homens poderosos?

(Ilustração: Ana Jansen, na imagem de divulgação do livro de Elizabeth Arantes)

The Queen of the Amazon, Ana Jansen, Admired and Hated

Although there is uncertainty regarding the exact date of Ana Jansen’s birth, it is unquestionable that when she was born, in São Luís, Grão-Pará and Maranhão still formed a single state within the Kingdom of Portugal: the State of Grão-Pará and Maranhão.

Therefore, whether she was born in 1797, as some claim, or in 1798, as others maintain, Ana would, in any case, have been over twenty years old when the State of Grão-Pará and Maranhão ceased to exist.

Only in 1823 did the state become part of Brazil, Portugal’s other colony, which had declared its independence from Portugal the previous year.

Thus, if Ana was the Queen of Maranhão, according to the unofficial title bestowed upon her, then, to some extent, she was also the Queen of Grão-Pará.

Although it is in São Luís that the memory of her name has been preserved to this day.

There, one finds Ana Jansen Avenue, a lagoon bearing the same name, and the mansion where she once lived.

It is also there that numerous fantastic stories about her continue to circulate among the city’s inhabitants.

The best-known of these tales is that of the enchanted carriage.

According to the legend, the carriage once used by Ana roams the streets of São Luís at night, drawn by horses and driven by a coachman, both of whom have been decapitated.

Legends such as these complicate the search for precise answers to the persistent questions that arise in reconstructing the life of this woman, who has nevertheless become an integral part of the cultural history of the Amazon.

Her story survives in two distinct versions: the one preserved by legend and the one reconstructed through historical research.

On the one hand, it is true that these legends help sustain public interest in this chapter of the Amazon’s past.

With this objective, in 2007, Banco do Nordeste do Brasil, through its BNB Cultural Program, distributed free comic books to public schools in São Luís. Created by art educator Beto Nicácio, the publication retold the legend of Ana Jansen’s enchanted carriage.

On the other hand, the fictional elements contained in such legends, when mixed with information obtained through rigorous historical research, make it more difficult to reach broad and accurate conclusions about Ana.

It is therefore not surprising that uncertainty persists even regarding her date of birth.

The only certainty concerns the date of her death: April 11, 1869, when she was about seventy years old.

The confusion surrounding what constitutes historical truth in Ana Jansen’s case might have been dispelled by two contemporary newspapers, O Cometa and Guajajaras.

Both circulated in São Luís during Ana’s lifetime.

Unfortunately, neither fulfilled this role, because the information they published about Ana and her family was clearly distorted by exaggeration, undermining the credibility of both newspapers.

The reason was simple.

Guajajaras belonged to Ana Jansen.

O Cometa was owned by her political enemies.

In 1840, for example, the two newspapers engaged in a bitter public feud.

O Cometa described the Jansen family as “thieves, murderers, drunkards, and cruel people.”

In retaliation, the editor responsible for that attack was denounced by Guajajaras as “a brat, a Treasury rat, a sycophant, a scoundrel, and a troublemaker.”

This exchange of insults, expressed in remarkably harsh language, was reconstructed by Lucimar Carvalho Souza in the study The Pasquin Newspapers of São Luís in the First Half of the Nineteenth Century.

According to the researcher, the intensity of these mutual offenses vividly reflected the depth of the political and economic conflicts between the interests defended by Ana Jansen and her family and those of their public adversaries.

Since the controversy existed solely to destroy rivals, it showed no concern whatsoever for historical truth.

Another difficulty identified by historians seeking to distinguish fact from fiction in the information about Ana is the mythology created around her figure.

Ana has been transformed into a mythical figure so that her story may serve as a symbol in struggles for various social causes.

Curiously, although these struggles are led by groups committed to defending fundamental human rights, they often present sharply contrasting interpretations of Ana herself.

Feminist Ana versus Slaveholding Ana

For some groups committed to defending women’s rights, Ana Jansen stands as an example of female courage in the struggle for recognition of equality between the sexes during a period marked by deep-rooted patriarchy.

Historian Elizabeth Arantes is one of the two authors of the book The Lady of Maranhão: A Biography of Ana Jansen.

At the book’s launch, she highlighted the following achievements of Ana:

“Ana Jansen entered spaces that were traditionally denied to women of her time. She distinguished herself as a major landowner who personally managed her own businesses, became actively involved in the province’s political disputes, and displayed a way of life that did not conform to the social norms of her era.”

From a similar perspective, other groups regard Ana as a visionary who founded an inexpensive newspaper that, in the heart of São Luís, helped ignite the first sparks of women’s emancipation.

Alana Souza, for example, writes in the article Urban Legend: The Maranhão Myth of Ana Jansen, published in Aventuras na Históriamagazine:

“Ana Jansen, also known as Donana, was a woman ahead of her time. Much has been speculated about her life, but her importance as a woman in the nineteenth century remains firmly etched in the history of Imperial Brazil.”

From the opposite perspective, however, other groups that are equally committed to social causes—but focused on confronting the legacy of slavery—portray Ana as an example of the cruelty practiced by Maranhão’s ruling elite during that period.

In this interpretation, she becomes an exceptionally cruel figure: a woman rigid in her convictions who, whenever challenged, allegedly inflicted atrocities upon both her enslaved workers and her political adversaries.

According to these accounts, whenever an enslaved person disobeyed her orders, she subjected the individual to every imaginable form of torture, including throwing them into a deep pit whose bottom was lined with sharpened iron spikes.

A representative example of this viewpoint is journalist Rafael Custódio, who published an article in Agência Pública magazine under the title:

“Ana Jansen: A Legend of Terror, the Magnate Who Enslaved 800 Black People Gives Her Name to a Landmark in Maranhão.”

In the article, he states that the legendary matriarch of nineteenth-century Maranhão was one of the wealthiest women in the province.

She possessed such economic power that she helped finance the Imperial Army during the suppression of popular uprisings that broke out across Brazil.

Custódio further argues that Ana sought the title of Baroness of Santo Antônio in order to gain political prestige and privileged access to the Brazilian Imperial Court.

He also writes that, in support of her request for a noble title, Ana cited the fact that she owned more than 800 enslaved people.

The article includes the following observation:

“The process of reviewing the names of streets, schools, and other public spaces has already undergone public scrutiny with regard to figures associated with the dictatorship. Yet it still falls short when it comes to individuals widely recognized as perpetrators of human rights violations.”

There is also a third perspective.

For those who hold this view, the conflicting portrayals of Ana Jansen—as both a feminist pioneer and a ruthless slave owner—make her an unquestionably contradictory figure, at once admired and repellent. Yet it is precisely this contradiction that makes her so fascinating, and far more compelling than she would have been had she simply been a conventional matriarch of her time.

For Eudes Lima, in an article entitled The Houses of Ana Jansen, Ana is “an enigmatic and dual figure in our History and Culture.”

He asks:

“Was Ana not simply a woman of flesh and blood who came from humble origins, was marginalized, and nevertheless overcame every adversity that life placed before her, becoming a successful, wealthy, powerful, and respected woman within the patriarchal, slaveholding, provincial society of nineteenth-century São Luís—and who, for that very reason, faced relentless opposition at a time when women were not expected to compete with powerful men?”

(Illustration: Ana Jansen, from the promotional artwork for Elizabeth Arantes’s book.)

Tags: AmazôniaAna JansencolunaDestaquefeministaRainha da Amazônia
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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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