A crise que culminou na saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Master, segundo relato da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, expôs muito mais do que uma divergência jurídica: escancarou uma guerra fria — e agora quase declarada — entre o ministro do Supremo Tribunal Federal e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Toffoli, indicado por Lula ao STF em 2009, atribui ao próprio presidente o movimento que levou a Polícia Federal a encaminhar diretamente ao presidente da Corte, Edson Fachin, um relatório explosivo com cerca de 200 páginas detalhando suas conexões com Daniel Vorcaro, no âmbito do escândalo do Banco Master.
Nos bastidores, segundo Malu Gaspar, o ministro está convencido de que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, não teria tomado tal iniciativa sem o aval do Planalto.
A leitura de Toffoli é clara: houve articulação política para isolá-lo. E ele enxerga a mão de Lula por trás do movimento que o constrangeu e o forçou a abandonar o caso.
A ferida que nunca cicatrizou
Mas, para além do episódio atual, há uma mágoa antiga que, segundo pessoas próximas, virou ressentimento profundo — dos dois lados.
A gota d’água para Lula teria ocorrido em 2019, quando o então ex-presidente estava preso na Superintendência da PF em Curitiba, condenado na esteira da Lava Jato. Com a morte de seu irmão, Genivaldo Inácio da Silva, o Vavá, a defesa pediu autorização para que ele comparecesse ao enterro em São Bernardo do Campo.
O caso chegou ao STF durante o plantão do recesso, sob a responsabilidade de Toffoli, então presidente da Corte. A decisão veio tarde — no dia seguinte e minutos antes do horário do sepultamento. E com condições consideradas humilhantes por aliados do petista: Lula só poderia encontrar familiares em um quartel militar, para onde o corpo deveria ser levado. Diante das exigências, Lula desistiu.
Em dezembro de 2022, de acordo com a jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo, Dias Toffoli teria pedido perdão ao presidente Lula (PT) por não ter autorizado o petista a comparecer ao velório de Vavá. De acordo com a colunista, o diálogo ocorreu quando Lula foi diplomado no Tribunal Superior Eleitoral.
“O senhor tinha direito de ir ao velório”, disse o magistrado ao petista. “Me sinto mal com aquela decisão, e queria dormir nesta noite com o seu perdão”. Lula teria respondido para Toffoli ficar tranquilo que depois eles poderiam conversar de maneira reservada.
Entre aliados, o episódio jamais foi esquecido. O contraste doeu: em 1980, durante a ditadura militar, Lula foi autorizado a comparecer ao enterro de sua mãe, Dona Lindu. Décadas depois, sob a égide do Estado Democrático de Direito, seu ex-advogado e indicado ao Supremo teria imposto barreiras que, politicamente, soaram como uma punhalada.
Nos bastidores do poder, a história passou a ser vista como traição.
A irritação aumentou quando Toffoli se aproximou de Jair Bolsonaro. Às vésperas das eleições de 2018, o ministro relativizou o termo “golpe” ao se referir a 1964, preferindo “movimento”. Durante a presidência de Bolsonaro, houve gestos públicos de cordialidade e aproximação que nunca desceram bem no PT.
Para Lula e seu entorno, aquilo não era apenas pragmatismo institucional — era desalinhamento político.
A reaproximação frustrada
Quando Lula voltou ao Planalto, Toffoli fez movimentos claros de aproximação. Em 2023, anulou provas do acordo de leniência da Odebrecht e classificou os métodos da Lava Jato como um “PAU DE ARARA DO SÉCULO 21”, numa decisão que agradou profundamente o campo lulista.
Houve reconciliação no fim de 2024. Houve almoço na Granja do Torto, na presença de Fernando Haddad. Houve conversas sobre o caso Master e até conselhos presidenciais de que a investigação poderia “reescrever a biografia” do ministro.
Mas, ao que tudo indica, o passado pesou mais que os gestos recentes.
Clima de ruptura
Segundo a apuração de Malu Gaspar, Toffoli hoje está convencido de que Lula atua nos bastidores para enfraquecê-lo. E, do lado do Planalto, cresce a avaliação de que o ministro se tornou imprevisível e politicamente custoso.
No Congresso, aliados do governo já murmuram — ainda que em tom reservado — sobre a possibilidade de apoiar, num cenário extremo, um pedido de impeachment contra o ministro. A ideia de “cortar a cabeça” do ex-aliado circula como metáfora de ruptura definitiva.
Se há algo que o episódio do enterro de Vavá simboliza é que, na política brasileira, certas decisões não prescrevem. Elas fermentam. E, quando combinadas com escândalos, disputas institucionais e ressentimentos pessoais, tornam-se combustível para crises maiores.
A relação entre Lula e Toffoli, que começou com confiança e ascensão conjunta ao poder, parece hoje marcada por desconfiança mútua, memória amarga e cálculo político frio.
E no centro de tudo, uma pergunta que ecoa em Brasília: até onde essa guerra silenciosa pode ir?














