*Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista
O surgimento da primeira faculdade de Engenharia Civil do Pará, em 1931, resultou de um ato de grandeza profissional, de notáveis engenheiros civis paraenses, projetados na vida social do Estado, através da Secretaria Estadual de Obras Públicas.
Durante cerca de 100 anos, foi aquele órgão da administração pública do Pará que garantiu para os engenheiros civis do nosso Estado, seu único mercado de trabalho em nosso Estado.
Estes engenheiros civis, embora fossem paraenses, tinha sido obrigado a estudar fora do Pará.
A maioria, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
Integrados, depois de formados, àquele órgão, através dele, realizaram não apenas pequenas obras de manutenção dos prédios públicos.
Também levantaram construções relevantes, até hoje, na História do Pará.
Edificaram o suntuoso Teatro da Paz, na Praça da República.
E, ergueram o Palácio Azul, atual sede do Museu de Arte de Belém, ao lado do Palácio Lauro Sodré, na Praça Dom Pedro II, antigo Largo do Palácio.
De um ponto de vista imediato, a criação de uma Faculdade de Engenharia Civil em nosso Estado, teria um bom efeito: evitaria que os jovens paraenses continuassem a se deslocar para outros lugares, a fim de se profissionalizar como engenheiros.
Mas, teria um efeito mais importante ainda.
Tornaria os profissionais formados na faculdade libertos do destino de se tornarem necessariamente funcionários públicos para poderem exercer o ofício de engenheiro.
Porque, sem o compromisso de trabalhar exclusivamente como funcionário do Poder Público, poderiam criar um novo mercado de trabalho, voltado para o atendimento de clientes particulares.
Como, de fato, ocorreu, quando um de seus ex-alunos Judah Levy, começou a construir prédios de apartamentos.
Por isto, os grandes profissionais que tinham atuado com brilho na Secretaria de Obras Públicas deram seu generoso apoio à ideia da criação da faculdade.
Entre eles:
Henrique Santa Rosa, secretário de Obras em oito governos estaduais;
Victor Maria da Silva, responsável pela reforma realizada no Teatro da Paz, dando-lhe luxo e sofisticação próprios da Belle Époque.
Francisco Bolonha, o construtor do palácio e da Vila Bolonha;
Raimundo Viana, o companheiro de Bento Miranda, na instalação do Mercado de Ferro do Ver-o-Peso.
Estes e outros destacados engenheiros não só atenderam às convocações para as reuniões de preparação de abertura da faculdade, feitas através do jornal Folha do Norte.
Como, depois, alguns deles se tornaram seus diretores e professores.
E, mais, impulsionados pelo estímulo do bom resultado obtido com a ajuda dada ao surgimento da faculdade, os mesmos insignes profissionais auxiliaram, também, na mesma década de 1930, a fundar o Sindicato dos Engenheiros do Pará e a instalar a sede paraense do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia CREA.
Contribuíram, assim, decisivamente para a profissionalização definitiva dos nossos engenheiros
No entanto, estas figuras ilustres só puderam servir à criação da faculdade – tão bem sucedida que hoje está expandida numa verdadeira Universidade Tecnológica, o gigantesco Instituto de Tecnologia, da UFPA – porque alguém soube mobilizá-los, de modo eficiente.
Este papel coube ao jornalista e intelectual Paulo Eleutério Senior, que através das edições da Folha do Norte soube manter viva a boa disposição daqueles grandes engenheiros. exatamente no momento em que Magalhães Barata – interventor e mais tarde, governador – do Pará, quis investir na ampliação do nosso ensino superior.
Foi Eleutério quem executou um hábil trabalho jornalístico com o qual sincronizou os planos do governo do Estado com a boa vontade de profissionais da engenharia de relevo na vida social paraense.
Na época, Eleutério era o secretário de Redação da Folha do Norte.
E se preocupava com os problemas brasileiros.
Ele os conhecia tão bem que se sentia à vontade para se manifestar, em seus artigos, sobre temas complexos, relacionados com regiões diferentes do Brasil.
Por exemplo, ele escreveu sobre a aspiração de criação de uma universidade técnica para o região Oeste do Brasil.
Sobre o plano de integrar o Planalto Central à economia nacional.
E, ainda, sobre a proposta de abrir um rodovia que ligasse a região do Araguaia ao Xingu.
Quando, afinal, ocorreu a fundação da faculdade, numa sessão do Instituto Histórico e Geográfico, realizada no Colégio Paes de Carvalho, no dia 7 de abril de 1931, foi Eleutério quem expôs aos engenheiros presentes os antecedentes daquela iniciativa.
Ele revelou os números de adesões recebidas e de alunos interessados nas vagas da faculdade.
E, conforme noticiou a Folha do Norte, no dia seguinte:
“Pôs em relevo o projeto do senhor interventor do Estado, capitão Magalhães Barata, que pretendia fundar a Universidade do Pará”.
Além de exercer estes papéis de propagandista e aglutinador, na fundação da faculdade, Eleutério ainda iria servir a ela, depois, como seu secretário, durante dois anos.
Em 1934, porém, a trajetória existencial Eleutério tomou outro rumo.
Ele se deixou seduzir pelo movimento integralista, no qual havia influência da Doutrina Social da Igreja.
E, que, por isto, em certo momento, chegou a atrair pessoas como o jovem padre Hélder Câmara, mais tarde, no período da Ditadura Militar, o heroico arcebispo de Olinda e Recife, defensor dos brasileiros perseguidos pelo regime vigente no País.
No integralismo brasileiro, porém, existia, igualmente, outra forte influência.
A do fascismo italiano.
O que, no Sul do país, levou à colaboração com os nazistas.
Eleutério tornou-se Chefe Provincial do Integralismo no Pará.
Uniformizado, comandava manifestações públicas e recebia, de seus seguidores, o gesto de saudação integralista: o braço estendido, como foi usado na Roma Antiga, acompanhado, porém, da pronunciação da palavra tupi “Anauê”(“Eis-me aqui”).
Posteriormente, Eleutério tornou-se também Chefe Provincial do Amazonas.
E, para o Integralismo atraiu até índias da Amazônia, a quem foi ensinado aquele gesto de saudação, como mostrou uma foto da “Revista Anauê”, de maio de 1935.
Esta publicação, segundo Carla Luciana Silva, em seu livro “Onda vermelha: imaginários anticomunistas brasileiros (1931-1934)”, continha um forte apelo de propaganda doutrinária.
Luciana descreveu a Revista Anauê assim:
“Uma revista de variedades, tecnicamente muito bem elaborada, que contava com textos teóricos, aliados ao cotidiano integralista, na medida em que os leitores mandavam fotos dos principais acontecimentos dos camisas-verdes (como os integralistas eram chamados) que eram divulgados amplamente pela publicação.”
Quinze anos depois desta aventura integralista de Eleutério, o Pará havia se transformado num campo de violentas disputas entre baratistas, os seguidores do general Barata, e seus inimigos políticos, eleitores do general Zacarias de Assumpção.
A Folha do Norte não era mais baratista, àquela altura.
Em vez disto, já assumidamente adepta de Assumpção, se tornara um núcleo de combate feroz a Barata.
Os baratistas, por seu lado, se mudaram da Redação da Folha do Norte para a Redação de O Liberal.
Eleutério que antes havia militado como jornalista na Folha do Norte, manteve-se na condição de baratista, e, deste modo, passou a trabalhar para O Liberal.
Lá trabalhava também o seu filho primogênito, Paulo Eleutério Filho, advogado que desempenhava, então, a função de chefe de gabinete de Barata.
Pois, naquela Redação, em 1951, o filho de Eleutério foi morto, após trocar tiros de revólver com um membro da equipe de Assumpção, o capitão Humberto Vasconcelos.
Depois da tragédia, Eleutério lutou, inutilmente, até o final de sua vida, em 1959, pela condenação do capitão, inocentado pela Justiça que julgou seu ato como legítima defesa.
Houve, porém, antes disto, um momento de satisfação para Eleutério.
Em 1956, quando a Faculdade de Engenharia comemorou seu jubileu de prata, o presidente do Centro Acadêmico, José Maria de Azevedo Barbosa, lembrou em seu discurso de Eleutério.
Disse sobre ele:
“Há 25 anos, precisamente, as ideias luminosas de um homem combativo, se cristalizavam na objetivação pura de uma escola superior para os cursos técnicos na Amazônia.”
English translation (tradução para o inglês)
The Story of the Journalist Eleutério: Benefactor of UFPA, Integralist Leader, a Desperate Father
*Oswaldo Coimbra is a writer and journalist
The creation of the first School of Civil Engineering in the state of Pará, in 1931, was not merely an administrative decision.
It was the result of an exceptional collective effort by prominent Pará-born civil engineers who, through their work at the State Secretariat of Public Works, had long occupied a central place in the social and institutional life of the state.
For nearly a century, that Secretariat represented the only stable job market for civil engineers in Pará.
Although natives of the state, these professionals had been forced to pursue their studies elsewhere—most commonly at the Polytechnic School of Rio de Janeiro.
Once they returned and joined the Secretariat, they did far more than routine maintenance of public buildings.
They left a lasting architectural legacy that still shapes the urban history of Pará.
Among their most emblematic works are the Teatro da Paz, in Republic Square, and the Palácio Azul – today home to the Museum of Art of Belém – standing beside the Palácio Lauro Sodré, in Dom Pedro II Square, formerly known as Largo do Palácio.
From a practical standpoint, the establishment of a local engineering school would immediately reduce the need for young Pará residents to leave the state in order to become engineers.
More importantly, however, it would break the long-standing dependence of engineers on public employment.
Freed from the obligation of working exclusively for the state, graduates could build an independent professional market serving private clients.
This transformation soon became reality, notably when former student Judah Levy began developing apartment buildings in Belém.
It was this broader vision that led the most respected engineers of the Secretariat of Public Works to lend their full support to the project.
Among them were Henrique Santa Rosa, Secretary of Public Works under eight different state governments; Victor Maria da Silva, who oversaw the Belle Époque renovation of the Teatro da Paz; Francisco Bolonha, builder of the Bolonha Palace and Vila Bolonha; and Raimundo Viana, partner of Bento Miranda in installing the Iron Market at Ver-o-Peso.
Responding to invitations published in the newspaper Folha do Norte, these professionals took part in the preparatory meetings for the school’s creation.
Several later assumed roles as directors and professors.
Encouraged by the success of this initiative, the same group went on, during the 1930s, to help found the Engineers’ Union of Pará and to establish the local branch of the Regional Council of Engineering, Architecture and Agronomy (CREA), consolidating the profession on a permanent institutional basis.
None of this, however, would have been possible without effective coordination.
That task fell to journalist and intellectual Paulo Eleutério Senior.
Through the pages of Folha do Norte, he mobilized the engineering elite at precisely the moment when Magalhães Barata—then federal interventor and later governor of Pará—sought to expand higher education in the state.
As managing editor of the newspaper, Eleutério demonstrated a keen ability to align government plans with the goodwill of influential professionals.
Deeply engaged with national issues, he wrote confidently about complex projects affecting distant regions of Brazil, including proposals for a technical university in the country’s western region, the economic integration of the Central Plateau, and the opening of a highway linking the Araguaia region to the Xingu.
When the School of Civil Engineering was officially founded on April 7, 1931, during a session of the Historical and Geographical Institute held at Colégio Paes de Carvalho, Eleutério was the one who presented the background of the initiative to those in attendance.
He disclosed the number of supporters and prospective students and, as reported by Folha do Norte the following day, emphasized the project of Captain Magalhães Barata to create what he envisioned as the future University of Pará.
Eleutério’s involvement did not end there.
He went on to serve as the school’s secretary for two years.
But in 1934 his life took a dramatic turn.
He became involved with Brazilian Integralism, a movement influenced both by the Social Doctrine of the Catholic Church and by European fascism.
At one stage, the movement attracted figures such as the young priest Hélder Câmara, who would later emerge as the celebrated archbishop of Olinda and Recife and a prominent defender of human rights during Brazil’s military dictatorship.
Integralism in Brazil also absorbed strong elements of Italian fascism, particularly in the southern states, where it fostered collaboration with Nazi groups.
Eleutério rose to the position of Provincial Chief of Integralism in Pará.
In uniform, he led public demonstrations and received the movement’s distinctive salute: the outstretched arm, inspired by Ancient Rome, accompanied by the Tupi word “Anauê” (“Here I am”).
He later assumed the same leadership role in Amazonas.
Integralist propaganda extended even into Indigenous communities of the Amazon.
Photographs published in Revista Anauê in May 1935 show Indigenous women performing the Integralist salute.
According to historian Carla Luciana Silva, author of Onda Vermelha: Imaginários Anticomunistas Brasileiros (1931–1934), the magazine functioned as a sophisticated propaganda tool, combining theoretical articles with visual documentation of daily Integralist activities.
Fifteen years later, Pará would be consumed by intense political violence between the supporters of General Magalhães Barata, known as baratistas, and the followers of General Zacarias de Assumpção.
By then, Folha do Norte had shifted allegiance and become openly opposed to Barata, while his supporters regrouped at the newspaper O Liberal.
Eleutério, a committed baratista, moved to O Liberal, where his eldest son, Paulo Eleutério Filho—a lawyer and chief of staff to Barata—also worked.
In 1951, tragedy struck inside the newsroom itself. Eleutério’s son was killed during a shootout with Captain Humberto Vasconcelos, a member of Assumpção’s political circle.
Until his death in 1959, Eleutério fought unsuccessfully to see Vasconcelos convicted.
The courts ultimately acquitted the captain, ruling the killing an act of self-defense.
Despite this personal devastation, Eleutério lived long enough to witness one public recognition of his earlier contributions.
In 1956, during the silver jubilee of the School of Engineering, student leader José Maria de Azevedo Barbosa paid tribute to him, recalling “the luminous ideas of a combative man that, twenty-five years earlier, had taken concrete form in the creation of a higher technical school for the Amazon.”
(Illustration: Drawing of Paulo Eleutério published in the Anthology of Amazonian Culture)















