A descoberta do corpo de Adriel Ribeiro dos Santos, na tarde de segunda-feira (9), expôs mais uma vez a face brutal do chamado “tribunal do crime” — mecanismo clandestino de julgamento e execução imposto por facções criminosas que vêm se expandindo com alarmante desenvoltura em várias regiões do Pará.
O cadáver foi localizado em avançado estado de decomposição em uma área de mata no bairro Nova Vitória, em Parauapebas, no sudeste paraense. A confirmação foi feita pela Polícia Civil do Estado do Pará, após dias de buscas intensas realizadas por uma força-tarefa que reuniu agentes da 16ª Superintendência Regional de Carajás, da Delegacia de Homicídios local, além de equipes da Polícia Militar do Pará, Guarda Municipal de Parauapebas e Corpo de Bombeiros Militar do Pará.
A localização do corpo é resultado direto do avanço das investigações iniciadas após o desaparecimento da vítima, ocorrido na última sexta-feira (6). Familiares de Adriel procuraram a polícia no fim de semana para registrar o sumiço, o que levou a Delegacia de Homicídios a iniciar uma série de diligências. A análise de imagens de câmeras de segurança revelou o momento em que o jovem foi levado por vários indivíduos — episódio que se tornaria a peça central da investigação.
A partir dessas informações, segundo o jornal Correio de Carajás, uma operação policial começou a desmontar o grupo envolvido. Durante as primeiras ações, quatro suspeitos foram apresentados por equipes da Polícia Militar. Na sequência da investigação, policiais civis localizaram e capturaram outro envolvido, cuja colaboração levou os agentes a um dos locais usados pelos criminosos.
Ali, os investigadores encontraram um dedo humano, que desde o início foi suspeito de pertencer à vítima e acabou encaminhado para perícia. A descoberta reforçou a hipótese de que Adriel havia sido submetido a extrema violência antes de ser executado.
As buscas pelo corpo passaram então a se concentrar em áreas de mata fechada próximas ao Rio Parauapebas e às imediações da Estrada de Ferro Carajás, regiões de difícil acesso que exigiram varreduras detalhadas por trilhas utilizadas por criminosos. Segundo o coordenador de inteligência da Guarda Municipal, Jesiel Souza Silva Fernandes, os agentes identificaram que alguns desses pontos já vinham sendo usados por quadrilhas para descartar objetos furtados e esconder provas de crimes.
No decorrer da operação, cinco adolescentes foram apreendidos em flagrante por atos infracionais análogos a homicídio qualificado, ocultação de cadáver e integração de organização criminosa.
Tribunal cruel
De acordo com a polícia, a morte de Adriel está ligada a um chamado “tribunal do crime”, prática comum entre facções. Nesses julgamentos paralelos — conduzidos sem qualquer tipo de defesa ou legalidade — integrantes da organização decidem quem deve viver ou morrer, executando pessoas consideradas rivais, suspeitas de colaborar com grupos adversários ou acusadas de descumprir regras impostas pela própria facção.
Até o momento, as autoridades não divulgaram qual organização criminosa estaria por trás da execução.
Casos como o de Adriel revelam um fenômeno que preocupa autoridades e especialistas em segurança pública: a consolidação de estruturas de “justiça paralela” dentro de territórios dominados por facções.
Esses chamados tribunais não passam de rituais de terror, utilizados para impor disciplina, espalhar medo e demonstrar poder sobre comunidades inteiras. A lógica é simples e brutal: quem cai nas mãos dessas organizações dificilmente tem qualquer chance de sobreviver.
No Pará — especialmente em cidades de crescimento acelerado e grande circulação de dinheiro, como Parauapebas, polo da mineração na região de Carajás — as facções encontraram terreno fértil para expandir sua influência. A presença desses grupos se manifesta tanto no tráfico de drogas quanto na imposição de regras e punições violentas dentro de bairros vulneráveis.
Desafio ao Estado
A atuação dessas estruturas criminosas representa um desafio direto ao Estado. Quando facções passam a decidir quem vive e quem morre, cria-se uma perigosa substituição da autoridade pública por um sistema baseado exclusivamente na violência.
A Polícia Civil do Estado do Pará informou que as investigações continuam para identificar outros envolvidos no assassinato e esclarecer completamente a dinâmica do crime. A corporação também destacou que a operação faz parte de um esforço permanente de enfrentamento às facções que atuam na Região de Carajás.
Enquanto isso, o caso de Adriel se soma a uma lista crescente de execuções atribuídas a esses tribunais clandestinos — uma engrenagem de morte que revela, de forma cruel, como o crime organizado tenta ocupar espaços onde o poder público ainda luta para se impor.














