A política brasileira vive um momento de reconfiguração silenciosa, mas de consequências potencialmente profundas. Após a revelação do envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, chefão do Banco Master, a direita tradicional começa a desembarcar da campanha do herdeiro bolsonarista. O que antes parecia uma candidatura consolidada pela máquina familiar agora enfrenta erosão acelerada entre suas próprias fileiras. Lideranças conservadoras reconhecem, nos bastidores, que Flávio perdeu o principal trunfo que o diferenciava de Lula: a aparência de integridade. Ao se envolver com esquemas financeiros questionáveis e ao enfrentar conflitos com Michelle Bolsonaro, o candidato nivelou-se por baixo ao prontuário do líder petista, destruindo o argumento moral que sustentava sua viabilidade. Nesse vácuo de esperança, surge um nome óbvio: Ronaldo Caiado, apoiado pela estrutura do PSD, pela experiência administrativa e Gilberto Kassab, uma felpuda raposa política, mestre em acertos políticos.
A Convenção do PSD e o jogo de cena
O Partido Social Democrático marcou para 26 de julho a convenção que oficializará a chapa Caiado-Kassab como candidatos à Presidência e Vice-Presidência. O evento ocorrerá em São Paulo, com a presença confirmada de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e aliado estratégico de Flávio Bolsonaro. O PSD controla 206 prefeituras no estado mais populoso da federação, o que confere ao partido uma base institucional respeitável. Porém, há um detalhe revelador: Caiado e Tarcísio não se cruzarão no palco. Esse “jogo de cena” expõe uma realidade incômoda—a necessidade de evitar constrangimentos entre lideranças que, embora aliadas, competem por espaço político. A convenção, portanto, não é apenas um ato de formalização; é um ritual que mascara as fraturas internas da coligação de centro-direita.
A estrutura respeitável e suas fragilidades
O PSD possui uma estrutura institucional considerável. Com 50 a 60 deputados federais, presença consolidada em estados relevantes como Goiás, São Paulo e Minas Gerais, além de controle sobre prefeituras em cidades médias e grandes, o partido apresenta capilaridade que não pode ser ignorada. Contudo, essa força é profundamente desigual. Concentra-se no Centro-Oeste e em partes do Sudeste, enquanto o Nordeste e o Norte representam vazios políticos críticos. O Rio de Janeiro, maior colégio eleitoral após São Paulo, permanece dominado por Republicanos e União Brasil. O Rio Grande do Sul, historicamente importante, também escapa ao controle pessedista. Mais grave ainda: o PSD funciona historicamente como uma coligação de lideranças regionais, não como partido ideológico coeso. Essa fragmentação interna compromete a mobilização nacional de votos e torna as alianças eleitorais instáveis, negociadas a cada pleito conforme os interesses locais se realinham.
Caiado: Força local, fraqueza nacional
Ronaldo Caiado é ex-governador de Goiás, reeleito em 2022 com margem confortável, com trajetória de centro-direita e apelo consolidado a setores agropecuários e empresariais. Sua máquina estadual é mobilizável e seu reduto é seguro. Mas aí terminam suas vantagens. Caiado possui baixíssimo reconhecimento nacional fora de seu estado. Pesquisas indicam rejeição elevada entre eleitores que não o conhecem. Sem experiência em campanha presidencial de grande escala, não é figura carismática ou de projeção nacional. Sua base é fundamentalmente goiana; a transferência de votos para outros estados permanece incerta, embora tenha iniciado articulação para consolidar com lideranças de outros estados um plano para amplificar seu alcance. O desafio é imenso: transformar um político regional em candidato presidencial viável em um país de dimensões continentais.
Kassab: Experiência administrativa sem mobilização eleitoral
Gilberto Kassab traz credenciais administrativas respeitáveis: ex-prefeito de São Paulo (2006-2012) com gestão reconhecida e ex-presidente do PSD (2017-2021), conhecedor da máquina partidária. Sua presença em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, oferece alguma vantagem. Contudo, Kassab está afastado do poder executivo há mais de uma década. Sua base eleitoral em São Paulo não é automática, considerando mudanças demográficas e políticas locais. Mais fundamentalmente, Kassab é “construtor de alianças” mais que “candidato carismático”. Sua função na chapa seria agregar experiência administrativa e capacidade de negociação, não mobilizar votos significativos. Essa é uma limitação estrutural que nenhuma campanha bem-executada conseguirá superar completamente.
O problema da ausência de um “Puxador de Votos”
A combinação Caiado-Kassab não resolve o problema estrutural do PSD: a falta de uma figura que mobilize eleitores por carisma, ideologia ou identificação pessoal. Nem o candidato a presidente nem o vice possuem apelo emocional capaz de transcender suas bases regionais. Essa ausência é crítica em eleições presidenciais, onde a personalidade do candidato frequentemente supera a máquina partidária. Em um contexto de polarização entre PT e direita tradicional, onde identidade política é determinante, a chapa pessedista corre o risco de ser “espremida” entre candidatos mais definidos ideologicamente. Eleitores de centro-direita podem preferir candidatos com maior clareza programática ou carisma pessoal, migrando para alternativas percebidas como mais viáveis.
Alianças instáveis e dependência estrutural
O PSD não consegue vencer sozinho em nenhum estado grande. Sua estratégia depende integralmente de coligações com União Brasil, Republicanos, MDB e possivelmente Podemos e Solidariedade. Essas alianças, porém, são negociadas a cada eleição e carecem de coesão duradoura. A fragmentação da direita agrava o cenário. O PSD compete com União Brasil, Republicanos e PSDB pelo mesmo espaço no espectro centro-direita. Em um ambiente de voto útil, eleitores podem migrar para candidato com maior viabilidade percebida. Se um desses partidos lançar candidato com maior apelo, a chapa Caiado-Kassab sofrerá esvaziamento. Essa vulnerabilidade é estrutural e não pode ser resolvida por campanha ou comunicação política.
Recursos limitados e narrativa fraca
O PSD possui acesso a fundo eleitoral proporcional ao tamanho de sua bancada, direito a tempo em horário eleitoral gratuito e pode mobilizar máquinas estaduais e municipais. Esses recursos, porém, são insuficientes diante de seus obstáculos. O partido não controla mídia hegemônica, diferentemente de candidatos com apoio de grandes grupos de comunicação. Seu financiamento depende de doações de empresas e setores específicos—agronegócio, mineração e construção—criando vulnerabilidade a ataques sobre captura de interesses. Mais grave: o PSD não possui narrativa clara que mobilize eleitores. Qual é a proposta diferenciadora? Essa pergunta permanece sem resposta convincente, deixando a campanha à mercê de eventos externos e da dinâmica de coligações. Portanto, a tarefa do “Sidônio” da dupla, Paulo Vasconcelos é hercúlea.
Marqueteiro ajuda, mas não é o candidato
O marqueteiro responsável pela campanha presidencial de Ronaldo Caiado será o publicitário mineiro Paulo Vasconcelos, que foi contratado para cuidar da estratégia de comunicação e marketing político da candidatura. Flávio chegou atrasado. O profissional era o favorito para atuar na sua campanha.
Perfil e trajetória
Paulo Vasconcelos é um publicitário com histórico de trabalho com nomes ligados à centro-direita brasileira. Trabalhou com Caiado desde pelo menos 2025, quando o governador começou a se preparar para a disputa presidencial. Segundo declarações do próprio Vasconcelos, a campanha de Caiado focará em “entregas, não em ideologia”.
O marqueteiro tem aparecido em programas de análise política para explicar a estratégia da candidatura. Curiosamente, Paulo Vasconcelos também foi sondado por Flávio Bolsonaro em fevereiro de 2026, o que demonstra seu prestígio no mercado de marketing político da direita. Sua contratação por Caiado reforça a profissionalização da campanha do PSD para 2026.
Os cenários eleitorais
Três cenários se desenham. No cenário pessimista—e mais provável—Caiado não consegue sair de Goiás, Kassab não mobiliza São Paulo, e a chapa fica com 5-8% de intenção de voto, não chegando ao segundo turno. Sofre migração de votos para candidato mais viável.
No cenário moderado, coligação com União Brasil e Republicanos agrega votos, a chapa consegue 12-15% de intenção de voto, ficando em terceiro ou quarto lugar, negociando apoio a outro candidato em troca de ministérios.
No cenário otimista, a coligação ampla com MDB, União Brasil, Republicanos e PSDB, com Kassab conseguindo mobilizar São Paulo, levaria a chapa a 18-20% de intenção de voto e disputa de segundo turno. Esse último cenário exigiria convergências políticas de baixíssima probabilidade. Mas, em política, nada é impossível, e no Brasil, tudo pode acontecer, inclusive, nada.
Vulnerabilidades críticas
A chapa enfrenta vulnerabilidades específicas. Caiado é desconhecido nacionalmente e pesquisas o colocam com rejeição alta entre eleitores que não o conhecem. Kassab é percebido como desgastado; sua gestão em São Paulo é antiga e não há “novidade” em sua candidatura. Ambos são alvos fáceis de críticas sobre corrupção, nepotismo ou falta de experiência. Escândalos envolvendo qualquer um deles destruiriam a campanha. Qualquer denúncia de corrupção ou nepotismo encontraria terreno fértil em um eleitorado já desconfiado. Em cenário polarizado, o PSD é “espremido” entre candidatos mais definidos ideologicamente. Eleitores de centro-direita podem preferir candidatos com maior clareza programática ou carisma pessoal.
O papel do PSD
Hoje, o PSD possui estrutura institucional respeitável, mas não tem capacidade de vencer uma eleição presidencial com a chapa Caiado-Kassab. As razões são estruturais e não conjunturais: falta de “puxador de votos” que mobilize eleitores por apelo emocional, carismático ou ideológico; capilaridade desigual, com força em Goiás e São Paulo, mas ausência no Nordeste, Norte e Rio de Janeiro; identidade fraca, pois o PSD não representa claramente nenhuma ideologia ou grupo social; dependência de alianças instáveis que podem desabar a qualquer momento; e contexto desfavorável, em cenário polarizado onde o PSD é espremido entre candidatos mais definidos. As chances reais apontam para 8-15% de intenção de voto no primeiro turno, com segundo turno improvável. O cenário mais provável é que o PSD use sua estrutura para negociar apoio a outro candidato em troca de ministérios—papel mais adequado às suas capacidades políticas reais. A chapa Caiado-Kassab é viável como estrutura política, mas não viável como projeto presidencial vencedor. O PSD é mais útil como “construtor de coligações” do que como “candidato presidencial”.
A política e as nuvens
O andamento da campanha dirá pois, como ensinou o ex-governador de Minas Gerais, ministro e deputado federal José de Magalhães Pinto: “Política é como nuvem. Você olha ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Essa mudança pode acontecer em razão do fatos que envolvem Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, os debates na TV, cuja expectativa é de uma boa performance de Caiado, ou algo que ainda não passou debaixo da ponte dos acontecimento.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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