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Home Cultura

A desconhecida carreira de escritor do grande ator Cláudio Barradas

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
25/08/2026
in Cultura
A desconhecida carreira de escritor do grande ator Cláudio Barradas
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A rica e variada atuação de Cláudio Barradas como ator no teatro, no cinema e na televisão, ao longo de mais de meio século consagrou-o como uma personalidade da cultura da Amazônia. 

Com justiça, seu nome foi dado ao espaço onde os alunos de Teatro da UFPA montam seus espetáculos. 

No entanto, há muitos anos, a imprensa do Pará, deixou de mencionar a produção literária do ator. 

Com isto, sua carreira de escritor se tornou, hoje, desconhecida.

Felizmente, no entanto, ela pôde ser reconstituída pelo próprio Cláudio Barradas, numa longa entrevista que ele concedeu a um grupo de pesquisadores da História do Cinema na Amazônia, em 2004.

Vamos publicá-la, aqui, em duas partes. 

A seguir a parte inicial

Você poderia detalhar o início da sua carreira de escritor?

Eu nem pensava em escrever. Num dia fui ver um filme europeu sobre sinos, em cartaz no Cine Moderno. 

O filme me empolgou e resolvi escrever uma crônica sobre aquele tema. Mostrei-a ao cônego Ápio Campos. 

Ele, depois, a publicou num semanário católico, “A Palavra”. Após isto, eu passei a escrever para o semanário. 

Foi quando houve um concurso literário na Academia Paraense de Letras. 

Juntei as minhas crônicas num livro chamado “Restos de Insônia” e o inscrevi no concurso. 

Uma das minhas concorrentes era a Lindanor Celina, que, depois se tornou uma querida amiga minha. 

Mais tarde, fiquei sabendo que ela tinha telefonado para tudo quanto era acadêmico pedindo o prêmio do concurso para ela. 

A Lindanor ganhou o prêmio, junto comigo. Porém, possivelmente, o livro dela fosse melhor que o meu porque ela é genial, como cronista, e, as minhas crônicas eram, digamos, umas merdinhas. 

Foi, portanto, com “Restos de Insônia” que, pela primeira vez, participei de um concurso da Academia Paraense de Letras. Depois ganhei outros concursos, com “Trovador de Deus” e “Rua do Flautista”. 

Como você arranjava tempo para escrever?

Em 1953, eu tinha 23 anos de idade, e, era funcionário da Companhia Internacional de Seguros. 

Lá, os funcionários trabalhavam em suas carteiras, numa sala grande. 

Como eu fazia rapidamente o meu trabalho, às nove horas da manhã, já tinha encerrado as minhas obrigações ali.

Então, abria minha gaveta, retirava meus papéis, e, começava a escrever. 

Inicialmente, eu escrevi, ali, uma peça a pedido do frei Alfredo Di Como, da igreja de São Francisco, no Guamá, onde nós tínhamos fundado a Juventude Franciscana. 

O frei Alfredo conhecia uma peça que eu havia feito no seminário, “O cavaleiro do amor”, sobre a vida de São Francisco de Assis. 

Nesta peça, o meu papel era o de um leproso. Ele não gostava dela. Por isto, disse para mim: 

“Cláudio, eu quero que você escreva um texto para nós montarmos uns quadros vivos sobre São Francisco”. 

Assim, quando vi, tinha escrito uma peça de teatro: “O trovador de Deus”. 

Mandei-a para um outro concurso da Academia Paraense de Letras e a peça também foi premiada por uma comissão da qual participava o Edgar Proença. 

Só recentemente, frei Di Como morreu, mas guardo uma foto dele. Ele se chamava Di Como porque os capuchinhos antigamente perdiam os seus nomes de família e recebiam os nomes dos lugares onde tinham nascido. 

Se, naquela época, eu tivesse me tornado capuchinho, iria me chamar frei Cláudio de Belém.   

Você chegou a pensar em disputar uma vaga na Academia Paraense de Letras?

Eu nunca desejei pertencer à academia, mas eu fui premiado pelos acadêmicos três vezes, como contei. 

Não fui premiado uma quarta vez, mas acho que deveria ter sido quando inscrevi num concurso um texto do qual eu, por ser um jovem inexperiente, não fiz cópia. 

Era uma peça em um ato. Tratava do escritor que deixa de viver para só escrever. Chega a um ponto que ele percebe que perdeu sua vida só escrevendo.

Os textos das peças premiadas 

O escritor de sua peça tinha alguma relação com você próprio?

Aquele escritor era um pouco eu próprio. Na vida real, eu passava os dias sentado, escrevendo no quartinho da nossa casa, que passei a chamar de “O Boi Azul”, não sei por quê. 

Talvez porque o quarto fosse pintado de azul, e, porque eu, que sempre gostei de cabeças de boi, pus uma imagem destas cabeças numa de suas paredes. 

A minha família toda estava instalada na parte de baixo da casa, e, por cima da cozinha, foi levantado o meu quartinho. 

Um dia, o cônego Ápio Campos, que era e continuou sendo um grande amigo meu, foi me visitar e disse: 

“Mas Cláudio, que pobreza franciscana! Tu fizeste voto de pobreza”. 

O quartinho não tinha cama, apenas uma rede. Minha estante era feita de caixas de sabão. Nele, havia, ainda, uma mesinha para eu escrever. E só. 

Onde ficava esta casa?

Na Rua Tiradentes.

Bom, vamos voltar para a história do escritor da sua peça. O que acontece com ele?

Na minha peça, o escritor, depois que envelhece, descobre que perdeu a vida escrevendo porque não publicava nada do que produzia. 

Ele resolve, então, se vingar daqueles papéis. 

Um dia, pega tudo o que escreveu, vai para um bar, e, se embebeda, disposto a queimar toda aquela maçaroca. 

Quando vai fazer isto, os papéis começam a falar com ele. Aquilo era algo que não havia, então, em teatro: um papel falar, em cena. 

Eu não sabia, ainda, como iria resolver aquilo numa montagem, mas pus o diálogo na peça. 

Aquele meu texto tratava, de um modo estético, da vida de escritor. 

Os diálogos, dentro do texto, eram importantíssimos para mim porque traziam minha concepção de Estética e de Arte. 

No final da história, o escritor termina não queimando os papéis. 

Mas quando vai sair do bar com seus papéis, ele sofre um infarto. Morre na rua e os ventos levam tudo o que escreveu. Assim termina a peça. 

Você guardou cópia deste texto?

Eu mandei a única cópia que fiz dela para a academia. 

O texto não foi premiado porque, me disseram, era monótono, não tinha ação, nem vida cênica. 

Ora, a ação no teatro não significa só movimentação ou um avançar na história. Fernando Pessoa, que é um gênio, tem um texto chamado de “drama estático”: o “Marinheiro”. 

Além disto, quem cria vida cênica para um texto é o diretor de sua montagem. 

Não sei se, na academia, jogavam fora o que se mandava para lá ou se arquivavam. 

Eu, descansado, nunca procurei por este texto e, por isto, o perdi.

Chamava-se “Falta húmus no meu chão”. 

Gostaria de ter, hoje, este meu trabalho, porque ele continha o meu pensamento sobre a arte, naquele instante.

Você, tal como o escritor de sua peça, também nunca publicou um livro, nem mesmo estes premiados pela Academia de Letras?

Nunca publiquei livro algum, nem mesmo os meus trabalhos premiados pela Academia Paraense de Letras. 

Apenas tive um conto publicado pelo MEC, numa obra editada por aquele órgão em dois volumes, e, outro conto, publicado pela Revista Status. 

O volume do MEC que tinha o meu conto emprestei para um camarada. E ele não o devolveu mais.

Mas você guarda até hoje os seus textos premiados?

Guardo.

(Ilustração: Cláudio Barradas jovem)

The Unknown Writing Career

of the Great Actor Cláudio Barradas

The rich and varied performances of Cláudio Barradas as an actor in theater, cinema, and television, over more than half a century, established him as a cultural figure of the Amazon. 

Rightfully, his name was given to the space where UFPA Theater students stage their productions. 

However, for many years, the press in Pará stopped mentioning the actor’s literary work. 

As a result, his writing career has become, today, unknown. 

Fortunately, it was reconstructed by Cláudio Barradas himself, in a long interview he gave to a group of researchers of Amazonian Cinema History in 2004. 

We will publish it here in two parts. 

Below is the initial part.

Could you detail the beginning of your writing career?

I never thought of writing. One day I went to see a European film about bells, showing at Cine Moderno. The film thrilled me, and I decided to write a chronicle on that theme. 

I showed it to Canon Ápio Campos. He later published it in a Catholic weekly, A Palavra. After that, I began writing for the weekly. 

Then there was a literary contest at the Academia Paraense de Letras. I gathered my chronicles into a book called Restos de Insônia and entered it in the contest. 

One of my competitors was Lindanor Celina, who later became a dear friend of mine. Later, I learned that she had called every academic she could, asking for the prize to be awarded to her. 

Lindanor won the prize, along with me. But possibly her book was better than mine, because she is brilliant as a chronicler, while my chronicles were, let’s say, little nothings. 

So it was with Restos de Insônia that, for the first time, I took part in a contest of the Academia Paraense de Letras. 

Later, I won other contests, with Trovador de Deus and Rua do Flautista.

How did you find time to write?

In 1953, I was 23 years old and worked at the Companhia Internacional de Seguros.

There, employees worked at their desks in a large room. Since I finished my tasks quickly, by nine in the morning I was already done with my duties. 

Then I opened my drawer, took out my papers, and began to write. 

At first, I wrote a play at the request of Friar Alfredo Di Como, from São Francisco Church in Guamá, where we had founded the Franciscan Youth. 

Friar Alfredo knew a play I had written in the seminary, The Knight of Love, about the life of Saint Francis of Assisi. 

In that play, my role was that of a leper. He didn’t like it. So he said to me: 

“Cláudio, I want you to write a text so we can stage some living scenes about Saint Francis.” 

Thus, before I knew it, I had written a play: The Troubadour of God. I submitted it to another contest of the Academia Paraense de Letras, and the play was also awarded by a committee that included Edgar Proença. 

Only recently did Friar Di Como pass away, but I still keep a photo of him. 

He was called Di Como because Capuchins used to lose their family names and take the names of the places where they were born. 

If, at that time, I had become a Capuchin, I would have been called Friar Cláudio of Belém.

Did you ever think of competing for a seat at the Academia Paraense de Letras?

I never wished to belong to the academy, but I was awarded by the academics three times, as I mentioned. 

I wasn’t awarded a fourth time, though I think I should have been, when I submitted a text to a contest without making a copy, since I was an inexperienced young man.

It was a one-act play. It dealt with a writer who stops living just to write. At some point, he realizes he has lost his life by writing alone.

The Texts of the Awarded Plays

Did the writer in your play have any relation to yourself?

That writer was somewhat myself. In real life, I spent my days sitting and writing in the little room of our house, which I began to call “The Blue Ox,” I don’t know why.

Perhaps because the room was painted blue, and because I, who always liked ox heads, placed an image of one of those heads on one of its walls. 

My whole family lived downstairs, and above the kitchen my little room was built.

One day, Canon Ápio Campos, who was and remained a great friend of mine, came to visit me and said: 

“But Cláudio, what Franciscan poverty! You’ve taken a vow of poverty.” 

The little room had no bed, only a hammock. My bookshelf was made of soap boxes.

There was also a small table for me to write. And that was all.

Where was this house located?

On Tiradentes Street.

Well, let’s return to the story of the writer in your play. What happens to him?

In my play, the writer, after growing old, discovers that he lost his life writing because he never published anything he produced. 

He then decides to take revenge on those papers. 

One day, he gathers everything he wrote, goes to a bar, and gets drunk, determined to burn all that pile. 

When he is about to do so, the papers begin to speak to him. That was something unheard of in theater at the time: a paper speaking on stage. 

I didn’t yet know how I would resolve that in a production, but I put the dialogue in the play. 

That text dealt, in an aesthetic way, with the life of a writer. 

The dialogues within the text were very important to me because they conveyed my conception of Aesthetics and Art. 

At the end of the story, the writer does not burn the papers. But when he leaves the bar with his papers, he suffers a heart attack. 

He dies in the street, and the winds carry away everything he wrote. That is how the play ends.

Did you keep a copy of this text?

I sent the only copy I made to the academy. The text was not awarded because, they told me, it was monotonous, had no action, nor stage life. 

Well, action in theater does not mean only movement or advancing the story.

Fernando Pessoa, who is a genius, has a text called a “static drama”: The Sailor.

Besides, it is the director of a production who creates stage life for a text. 

I don’t know if the academy threw away what was sent there or if they archived it. I, unconcerned, never looked for this text, and thus I lost it. It was called There Is No Humus in My Ground. 

I would like to have this work today, because it contained my thoughts on art at that moment.

Like the writer in your play, did you also never publish a book, not even those awarded by the Academy of Letters?

I never published any book, not even my works awarded by the Academia Paraense de Letras. 

I only had one short story published by the Ministry of Education, in a work edited by that institution in two volumes, and another short story published in Statusmagazine. 

The MEC volume that contained my short story I lent to a friend. And he never returned it.

But do you still keep your awarded texts today?

I do.

(Illustration: A young Claudio Barradas.)

Tags: artistaCláudio BarradasculturaDestaqueHistória
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Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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