Os seres humanos flertam com a violência e a solidariedade quando dispõe de pouco recurso para sua sobrevivência. Na corda do Círio, os recursos são um lugar na corda e a água distribuída.
O que você faz quando está sendo empurrado para fora da procissão? Quando alguém que você ama está clamando por água? Quando um grupo tenta cortar a corda? Sentimentos confusão e complexos tomam conta dos promesseiros.
No decorrer da procissão, a violência, o amor e a fé caminham juntos. No início, muita devoção, cânticos de fé, harmonia, sorrisos e brincadeira, coesão. Passada 1 hora, o cenário começa a ganhar novas camadas.
Quem estava na calçada, tenta entrar na corda, seja no jeitinho, seja na truculência, pegando o valioso lugar de quem chegou cedo e esperou por horas para ter a chance de pagar sua promessa. O que você faria?
Nesse cenário começam a cair os fisicamente mais fragilizados, principalmente mulheres. Os primeiros palavrões e ameaças surgem no ar, anunciando que a sobrevivência deve ser conquistada.
Coexistindo com os conflitos, o espírito de compaixão entre pessoas que nunca se viram, mas são ligadas pela fé, faz tentarem encaixar um novo promesseiro, entendendo que todos tem uma história que precede ao Círio. As águas, de mão em mão aliviam o calor e energizam a fé naquele mar de gente.
Um namorado caça a água no meio da multidão, molha a cabeça da namorada, depois despeja um pouco na boca e, logo após, pega mais água, mas agora, jogar no rumo da cabeça de desconhecidos que rogam pelo valioso recurso. Nesse momentos a solidariedade é viva. Mas perceba, há prioridade.
O corte e a força física
O mesmo homem briga com outro por estar machucando sua companheira, um clima de tensão toma conta com trocas de ameaças. Um quer entrar, ela não quer sair e, mesmo pedindo compaixão, o grande homem não alivia e a tira da corda, momento em que se desespera através de lágrimas, causando fúria no seu companheiro, que agora aparenta querer agredi-lo.
A confusão só é desfeita por outra, pois alguém (quem?), quer cortar a corda. Guardas da Santa chegam como o Estado para impor ordem. Mais ameaças, palavrões, julgamento e sentença. Quem foi? Teorias da conspiração surgem em meio ao caos: foi aquele de rosa, foi o próprio guarda, foi uma quadrilha que vende a corda para turistas….foi alguém, ninguém sabe quem.
Próximo do fim, policiais ainda em curso de formação são colocados para empurrar a procissão para o centro da via. Alguns empurram, outros agridem, xingam, apertam tanto que várias pessoas passem mal, seja de calor, seja por contusão, seja por pânico de uma tragédia eminente.
No fim, o saldo é positivo para a solidariedade e amor. Mas as facas usadas para cortar ou ameaçar por um pedaço de corda nos lembra que o ser humano é complexo.
Feliz Círio.















