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Home Cultura

A condenação à morte do historiador Antônio Baena

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
12/04/2026
in Cultura
A condenação à morte do historiador Antônio Baena

Livro do historiador considerado obra prima, em publicação do Senado Federal) 

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*Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista

Um modo simples de dimensionar a importância do historiador Antônio Ladislau Monteiro Baena para a cultura paraense é proporcionado pela Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Em seu site de obras raras digitalizadas, a instituição postou integralmente nada menos que seis livros dele.

Um outro modo de demonstrar isto foi criado com a escolha do nome de Baena para uma rua de Belém.

O que, por extensão, levou o nome dele para o estádio do Clube do Remo, construído naquela rua, a Travesssa Antônio Baena.

Embora o nome verdadeiro do Baenão seja, oficialmento, Evandro Almeida.   

Nascido em Lisboa, Baena viveu na Província do Pará, durante 47 anos, entre 1803 e 1850, portanto, desde quando ela ainda era a Capitania do Gram-Pará.

No Pará, ele trabalhou incansavelmente no levantamento de dados, em váriadas fontes, como arquivos paroquiais, cartórios e Câmaras Municipais.

Com estes dados, ele escreveu duas obras fundamentais para o estudo do nosso passado:“Compêndio das Eras da Província do Pará”, e “Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará”.

Nelas, apresentou dados da Geografia Física, da Demografia, da Economia, das Administrações Pública e Judiciária, e, ainda, da flora e sua fauna, paraenses.

Estes dados, reunidos e estudados por Baena, ajudaram a entender a tensa ligação existente entre as províncias do Norte com as do Sul, do Brasil, escreveu Michelle Rose Menezes de Barros, em sua dissertação de Mestrado aprovada no Programa de Pós-graduação em História, da UFPa. 

Michelle escreveu na dissertação, intitulada “Germes de grandeza – Antônio Ladislau Monteiro Baena e a descrição de uma província do Norte, durante a formação do Imperio Brasileiro”:

“Antônio Baena: nome de referência para muitos que procuram na História possíveis respostas para elucidar preocupações levantadas no presente. Nome, portanto, procurado e citado por ter se debruçado, através de estudos históricos e geográficos acerca do Pará, ao longo de sua vida na Capitania do Gram-Pará, posteriormente, Província do Pará, ao principiar o século XIX”.

Sob julgamento do Conselho de Guerra

Alguém da dimensão de Baena deveria ter sido sempre muito admirado no Pará.

O que não ocorreu, no entanto.

Na verdade, houve um momento em que ele chegou até a ser condenado à morte.

Mas, é verdade também, isto não aconteceu por causa de suas pesquisas ou de seus livros.

E, sim, porque a sua produção intelectual correu paralelamente à sua carreira como militar.

Militar ele já era quando chegou a Belém, com 21 anos de idade, vindo de Portugal.

Tinha, então, patente de segundo tenente do Império de Portugal.

Vinte e quatro anos depois, havia ascendido ao posto de comandante de um corpo de artilharia.

Aos 39 anos de idade.

Foi quando se viu submetido a um Conselho de Guerra.

E condenado à morte, no dia 27 de março de 1827.

Àquela altura, o Pará vinha atravessando, já havia alguns anos, grande turbulência social e política.

A qual desembocaria no movimento de rebeldia popular, conhecido como Cabanagem. 

 Em Cametá, rebeldes armados tinham se reunido num grande contingente militarizado.

Coube, então, a Baena, como oficial superior, comandar a expedição formada para reprimi-los.

Para ele levar a cabo esta missão, foram colocados sob suas ordens 204 soldados e 12 oficiais.

Todos, instalados em 3 embarcações, equipadas com 4 canhões.

Para chegar a Cametá, a expedição viajou por oito dias.

No fim da viagem, Baena ordenou que uma parte da tropa desembarcasse para enfrentar logo os rebeldes.

Ele e os soldados restantes permaneceram a bordo das embarcações.

Os que estavam em terra firme lutaram durante duas horas, com os cabanos, sem que Baena fornecesse apoio a eles.

Quando as munições dele acabaram, eles tiveram de recuar.

E, entraram em desespero, quando não acharam na praia os botes que haviam servido ao desembarque.

“A derrota foi, então, completa para os infelizes abandonados, um desastre total para as forças governamentais”, conta Arthur Vianna, na apresentação da edição de “Compêndio das Eras da Província do Pará”, patrocinada pela UFPa, em 1969:

Por causa daquele terrível fiasco militar, Baena ficou preso no quartel do conjunto arquitetônico das Mercês.

Julgado pelo Conselho de Guerra, sua condenação à morte, pouco menos de cinco meses depois, foi trocada por outra sentença, pela  Junta Militar de Justiça do Gram-Pará.

 Substituída pela demissão de seu posto militar.

A junta militar justificou assim aquela sua decisão:

“O malogro da expedição proviera mais da natural frouxidão do réu, do que de deliberada vontade”.

“Frouxidão” poderia significar tanto falta de energia durante os combates travados em Cametá, como covardia.

Mas, mesmo a pena de demissão terminou não sendo aplicada.

O currículo que foi brilhante

De qualquer modo, aqueles episódios se tornaram vergonhosos, dentro da carreira militar de Baena.

Sobretudo porque, antes deles, Baena recebeu, por parte de seus superiores, várias demonstrações de confiança no seu preparo militar.

Nos primeiros anos de 1800, o brigadeiro Jerônimo José Nogueira de Andrade, a quem competia comandar todas as tropas do Gram-Pará, deu a Baena a incumbência de elaborar um “Compêndio de Fortificação de Campanha”.

Em 1807, o governador Magalhães de Menezes confiou a ele a realização de duas tarefas ligadas à defesa do Gram-Pará/Maranhão.

A primeira era a de preparar um terreno para que, nele, os membros do corpo de artilharia recebessem aulas teóricas e executassem exercícios práticos de balística.

Competiu a Baena dirigir todos os serviços de preparação do campo, inclusive os de alinhamentos dos alvos para a artilharia experimental.

A segunda tarefa que, em 1807, coube a Baena desempenhar em defesa do Pará foi constituída de duas fases.

A inicial correspondia à elaboração de um relatório sobre o estado de conservação da Fortaleza da Barra, construída em pedra e cal, havia mais de 120 anos.

O autor do seu projeto fora um capitão chamado Antônio Rodrigues Lameira da França.

Ficava no banco de pedras de uma ilhota, à esquerda do canal de entrada de Belém, próximo de onde hoje se situa o aeroporto de Val-de-Cans. Com esta localização, servia como guardião fluvial da capital do Gram-Pará.

A última fase da tarefa de Baena foi a execução de um projeto de recuperação e ampliação da fortaleza.

Baena atendeu o governador, mas seu projeto, assim como o Compêndio de Fortificação de Campanha, nunca foi encontrado no Arquivo Público do Pará.

Em 1818, Baena foi designado para trabalhar como professor da Aula Militar, de Belém.

Na época, as Aulas Militares eram os únicos centros de ensino, nos quais os alunos recebiam uma formação regular como construtores de edificação.

Só nos anos de 1740, surgiu, na França, a primeira Escola de Engenharia Civil, do mundo.

Depois de ser entronizado na categoria de docente de Belém, Baena recebeu do governador mais duas tarefas muito importantes para o futuro daquele centro de ensino militar.

A primeira foi a de elaborar um “Compêndio de Fortificação de Campanha” para uso na Aula Militar.

Esta tarefa estava muito próxima da que ele executara treze anos antes, a pedido do comandante das tropas do Gram-Pará, brigadeiro Jerônimo José Nogueira de Andrade.

Agora, porém, ele deveria escrever um compêndio voltado específicamente para as necessidade de aprendizado dos alunos do primeiro ano da Aula Militar de Belém.

Pouco tempo depois, o governador achou que era hora de a modesta Aula Militar de Belém passar a ter também um regimento semelhante ao da Academia Real Militar do Rio de Janeiro.

Coube a Baena redigir o documento.

No dia 15 de outubro de 1818, Baena entregou ao governador este seu trabalho.

Baena denominou o regimento do centro de ensino militar de Belém de “Memória sobre a ordem em que a Aula Militar da Província deve ser sistematizada”, como ele registra em “Compêndio das Eras da Província do Pará”, escrito em 1838.

Pronto o documento, escreveu Baena:

“Deu ao governador um estatuto especial para servir de regulamento à Escola Militar, quanto à norma e método de ensino e à qualidade dos estudos”,

Com este currículo de Baena, seu fracasso, em Cametá, ficaria, assim, como um acontecimento incômodo e intrigante.

No entanto, revelador do temperamento de Baena foi o fato de que até enquanto esteve preso ele aproveitou seu tempo disponível para escrever.

Preparou uma nota na qual enfatizava a urgente necessidade no Brasil de levantamentos estatísticos.

O trabalho iniciado com aquela nota iria ser retomado por Baena, anos depois, quando a fase de descrédito na competência dele havia passado.

Em 1832, o presidente da província, José Joaquim de Oliveira, o nomeou secretário de uma comissão encarregada de organizar dados estatísticos sobre o Gram-Pará.

Cerca de oito meses depois, Baena já tinha reunido uma quantidade imensa de dados o que lhe permitiu concluir a redação daquela que seu biógrafo, Arthur Vianna, considera a sua melhor obra: o “Ensaio Corográfico Sobre a Província do Pará”.

Por mais de uma década, Baena ainda se manteria ativo como escritor, até o ano de sua morte, em 1850.

Quando ele faleceu, tinha-se tornado coronel.

E, havia produzido ensaios históricos, geográficos, poemas, biografia e drama. 

(Ilustração: Livro do historiador considerado obra prima, em publicação do Senado Federal) 


English translation (traduçãoa para o inglês)

The death sentence of the historian Antônio Baena

*Oswaldo Coimbra is a writer and journalist

A simple way to measure the importance of the historian Antônio Ladislau Monteiro Baena to the culture of Pará is provided by the Arthur Vianna Public Library.

On its website of digitized rare works, the institution has made available in full no fewer than six of his books.

Another way to demonstrate this importance is through the naming of a street in Belém after Baena. This, in turn, led to his name being associated with the stadium of Clube do Remo, built on that street—Travessa Antônio Baena.

Although the stadium’s official name is Evandro Almeida.

Born in Lisbon, Baena lived in the Province of Pará for 47 years, between 1803 and 1850—thus, since the time when it was still the Captaincy of Grão-Pará.

In Pará, he worked tirelessly gathering data from various sources, such as parish archives, notary offices, and municipal councils.

With this data, he wrote two fundamental works for the study of our past: “Compêndio das Eras da Província do Pará” and “Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará.”

In them, he presented information on Physical Geography, Demography, the Economy, Public and Judicial Administration, as well as the flora and fauna of Pará.

These data, collected and analyzed by Baena, helped to explain the tense relationship between the northern and southern provinces of Brazil, wrote Michelle Rose Menezes de Barros in her Master’s dissertation approved by the Graduate Program in History at UFPA.

In the dissertation, titled “Seeds of Greatness – Antônio Ladislau Monteiro Baena and the Description of a Northern Province during the Formation of the Brazilian Empire,” Michelle wrote:

“Antônio Baena: a reference name for many who seek in History possible answers to clarify concerns raised in the present. A name therefore sought and cited for having dedicated himself, through historical and geographical studies of Pará, throughout his life in the Captaincy of Grão-Pará—later the Province of Pará—at the beginning of the 19th century.”

Under trial by the Court of Martial

Someone of Baena’s stature should always have been greatly admired in Pará.

That, however, did not occur.

In fact, there was a moment when he was even sentenced to death.

It is also true, however, that this did not happen because of his research or his books.

Rather, it occurred because his intellectual production ran parallel to his military career.

He was already a military man when he arrived in Belém at the age of 21, coming from Portugal.

At the time, he held the rank of second lieutenant in the Portuguese Empire.

Twenty-four years later, he had risen to the rank of commander of an artillery corps.

He was 39 years old.

It was then that he was brought before a Court Martial.

And sentenced to death on March 27, 1827.

At that time, Pará had already been experiencing great social and political turbulence for several years.

This unrest would culminate in the popular uprising known as the Cabanagem.

In Cametá, armed rebels had gathered into a large militarized contingent.

As a senior officer, Baena was assigned to command the expedition organized to suppress them.

To carry out this mission, 204 soldiers and 12 officers were placed under his command.

All were embarked on three vessels equipped with four cannons.

The expedition took eight days to reach Cametá.

At the end of the journey, Baena ordered part of the troops to disembark and immediately engage the rebels.

He and the remaining soldiers stayed aboard the vessels.

Those on land fought for two hours against the cabanos, without receiving support from Baena.

When their ammunition ran out, they were forced to retreat.

They fell into despair when they could not find on the beach the boats that had been used for landing.

“The defeat was then complete for the unfortunate abandoned men, a total disaster for the government forces,” recounts Arthur Vianna in the introduction to the 1969 UFPA edition of “Compêndio das Eras da Província do Pará.”

Because of that terrible military failure, Baena was imprisoned in the barracks of the Mercês architectural complex.

Tried by a Court Martial, his death sentence—less than five months later—was commuted by the Military Justice Board of Grão-Pará.

It was replaced with dismissal from his military post.

The board justified its decision as follows:

“The failure of the expedition resulted more from the defendant’s natural weakness than from deliberate intent.”

“Weakness” could mean either lack of energy in combat or cowardice.

Even so, the dismissal was ultimately not enforced.

The curriculum that was brilliant

In any case, those episodes became a source of shame within Baena’s military career.

Especially because, prior to them, he had received several demonstrations of confidence from his superiors regarding his military competence.

In the early 1800s, Brigadier Jerônimo José Nogueira de Andrade, who commanded all the troops of Grão-Pará, tasked Baena with preparing a “Compendium of Field Fortification.”

In 1807, Governor Magalhães de Menezes entrusted him with two tasks related to the defense of Grão-Pará/Maranhão.

The first was to prepare a training ground where members of the artillery corps could receive theoretical instruction and perform practical ballistics exercises.

Baena was responsible for directing all preparatory work, including the alignment of targets for experimental artillery.

The second task assigned to him that year consisted of two phases.

The first involved drafting a report on the state of conservation of the Fortaleza da Barra, built of stone and lime more than 120 years earlier.

Its design had been created by Captain Antônio Rodrigues Lameira da França.

It stood on a rocky islet on the left side of the entrance channel to Belém, near where Val-de-Cans Airport is now located, serving as a fluvial guardian of the capital of Grão-Pará.

The final phase of Baena’s task was to execute a project for the restoration and expansion of the fortress.

He fulfilled the governor’s request, but neither this project nor the Compendium of Field Fortification has ever been found in the Public Archive of Pará.

In 1818, Baena was appointed to work as a professor at the Military Class of Belém.

At that time, Military Classes were the only centers where students received formal training as builders.

Only in the 1740s did the first School of Civil Engineering in the world emerge in France.

After being established as a teacher in Belém, Baena received two more important assignments from the governor concerning the future of that military institution.

The first was to prepare a “Compendium of Field Fortification” for use in the Military Class.

This task was very similar to the one he had performed thirteen years earlier at the request of Brigadier Jerônimo José Nogueira de Andrade.

Now, however, he was to produce a compendium specifically aimed at the needs of first-year students.

Shortly thereafter, the governor decided that the modest Military Class of Belém should adopt regulations similar to those of the Royal Military Academy of Rio de Janeiro.

Baena was assigned to draft the document.

On October 15, 1818, he submitted this work to the governor.

He titled it “Memoir on the Order in Which the Military Class of the Province Should Be Systematized,” as he later recorded in “Compêndio das Eras da Província do Pará” (1838).

Once the document was completed, Baena wrote:

“It provided the governor with a special statute to serve as regulations for the Military School, regarding the standards and methods of teaching and the nature of the studies.”

With such a record, Baena’s failure in Cametá stands out as a troubling and intriguing episode.

However, revealing of his character is the fact that even while imprisoned he used his time to write.

He prepared a note emphasizing the urgent need for statistical surveys in Brazil.

This work would later be resumed by Baena, after the period in which his competence had been questioned had passed.

In 1832, the provincial president José Joaquim de Oliveira appointed him secretary of a commission tasked with organizing statistical data on Grão-Pará.

About eight months later, Baena had gathered an immense body of data, enabling him to complete what his biographer Arthur Vianna considered his finest work: “Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará.”

For more than a decade, Baena remained active as a writer, until the year of his death in 1850.

By then, he had become a colonel.

And he had produced historical and geographical essays, poetry, biography, and drama.

(Illustration: Book by the historian considered a masterpiece, in an edition published by the Federal Senate.)

Tags: A condenação à morteDestaquehistoriador Antônio Baena
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