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Home Cultura

A cidade velha mas viva nas lembranças dos belenenses

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
28/06/2026
in Cultura
A cidade velha mas viva nas lembranças dos belenenses

Ilustração: Livro das associações dos moradores do bairro mais antigo de Belém

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O ano era o de 2008. E, tratava-se, então, de decidir quem iria escrever o livro dedicado ao primeiro bairro de Belém.

Aquele onde a cidade começou a nascer, quando os membros da expedição de Francisco Caldeira Castelo Branco construíram o Forte do Castelo, em 1616.

Os responsáveis pela edição do livro eram a associação dos moradores daquele bairro, a CiVViva – Cidade Velha, Cidada Viva, e, o Núcleo de Memória dos Construtores da Amazônia, da UFPa.

Os caminhos escolhidos para a produção da obra foram ousados.

A primeira decisão tomada: a obra seria escrita por qualquer morador de Belém que demonstrasse capacidade para produzir textos claros e precisos. Apenas isto. Não importava sua idade, nem seu grau de instrução.

Abriram-se inscrições para os interessados, na Casa da Linguagem. E um grupo de 20 inscritos foi selecionado.

Suas faixas etárias iam da adolescência à terceira idade. Seus graus de instrução, do ensino médio ao mestrado.

Para a elaboração dos textos do livro, o grupo foi preparado numa oficina ministrada no auditório do local de inscrições.

A outra decisão: antigos moradores da Cidade Velha que estivessem vivendo, havia muitos anos, fora do Pará seriam convidados a enviar as lembranças do bairro guardadas em suas memórias.

Três paraenses residentes há mais de 50 anos fora do Estado enviaram textos de São Paulo, da Austrália e dos Estados Unidos.

Impressa a obra, os nomes dos membros daquele grupo de novos escritores apareceram na capa.

Quase vinte anos depois, quase todos eles se firmaram em campos de atividade ligados às universidades.

Um deles, se tornou editor de livros.

O que todos eles escreveram ainda pode ser lido nos poucos exemplares guardados para venda na CiVViva.

Quanto aos textos que os três paraenses mandaram de fora do Estado são impressionantes provas da capacidade humana de reter fatos e pessoas, sobretudo as de infância, não importa o tempo que tenha passado, nem a distância física do local onde as lembranças foram registradas.

Estes textos você vai lê-los, agora.

Estão transcritos abaixo.

Maria dos Gatos, Cheira Éter e Chupa Ovo

Aurilene Sena nasceu e morou na antiga Rua Santarém, atual Rodrigues dos Santos, atrás da Igreja de São João, até o início de sua juventude. Há mais de 50 anos vive em São Paulo.

De Belém ela guardou lembranças relacionadas com os personagens de rua da Cidade Velha, conhecidos das crianças, de vendedores, e, do Cine Guarani.

“Lembro da Maria dos Gatos, do Cheira Éter e do Chupa Ovo. Ele tinha lábios finos e enfiados na boca, algo que parecia engraçado para nós, crianças.

Lembro também do Rala-rala. Em seu carrinho, ele trazia várias garrafas com sucos de nossas frutas regionais, e, uma enorme pedra de gelo, no centro, em que esfregava um aparelhinho que lembrava uma pequena pá de alumínio.

Com ele, tirava pequenos fragmentos do gelo e os jogava nos copos que continham porções daqueles sucos. Aquilo era delicioso.

Passava pelas ruas gritando: “Olha o rala-rala!”

Lembro, também, do tapioqueiro, que trazia um enorme tabuleiro na cabeça, carregado de tapioquinhas, recheadas com coco ralado e molhadinhas no leite de coco.

Eram bem macias e vinham sobre pequenos pedaços retangulares de folhas de bananeiras.

O contraste do verde da folha e a alvura da tapioquinhas era lindo.

O tapioqueiro anunciava a passagem dele, gritando de um jeito meio cantado:

“Tapioca, tapioquinha!”

O Cine Guarani era o pequeno cinema do nosso bairro, que todos nós, crianças, frequentávamos.

Suas cadeiras eram de madeira, sem estofamento.

Nele, assistimos muitos filmes da Atlântida, inclusive as chanchadas com Oscarito, Grande Otelo e Cill Farney, assim como os filmes de bang-bang.

Durante a Semana Santa assistíamos ao filme sobre a vida e morte de Jesus.

Às vezes, a película que estava sendo projetada se arrebentava no meio da sessão. Tínhamos de esperar o conserto da fita para ver o resto do filme.

O Espanhol, o Ioiô, a Arara e sua filha

Marlene Coimbra, também nasceu na Rua Rodrigues dos Santos. Estudou no Colégio Santa Rosa. Depois, mudou-se para São Paulo, há mais de cinquenta anos.

Mais tarde foi para a Austrália, onde se tornou cidadã daquele país.

Mas também não se esqueceu dos personagens de rua de sua criancice, na Cidade Velha.

“Lembro de quatro personagens de rua, da Cidade Velha: o Espanhol, o Ioiô e a Arara, com sua filha.

O Espanhol estava sempre bem arrumado. Vestia calça, com cinto, camisa, e, usava sapato de couro. Embora o víssemos quase diariamente, nunca soubemos o nome real dele, nem onde morava.

Não soubemos se tinha família ou amigos, nem conhecíamos a razão de seu apelido. Andava sempre sozinho, indo e vindo sabe Deus para que.

Quando ele passava, os moleques gritavam:

– Espanhooool!.

Ele se enfurecia. Jogava pedras no moleques.

Já o Ioiô era diferente. Era um senhor que passava pelas nossas ruas todas as noites, acredito que por volta das vinte horas, vendendo mingau de milho branco, com leite de coco.

Igual àquele que preparávamos para as festas juninas e que é vendido, o ano todo, no Ver-o- Peso.

Interessante era o modo como ele comercializava seu produto.

Empurrava um carrinho de mão, grande, de madeira, no qual acomodava uma panela enorme, com o mingau.

No carrinho, ele instalava também um candeeiro, cuja chama era alimentada com gás, para iluminar as ruas semi-escuras por onde transitava.

Nós o chamávamos de Ioiô porque ele anunciava sua passagem pelas ruas gritando:

– Olha o Ioiô! Vai passando!”

A vizinhança que ouvia este bordão corria para a rua, com suas cuias, tigelas, copos etc. Também nunca soubemos como ele se chamava realmente, nem onde morava, se tinha família e outra ocupação, durante o dia.

Vivemos anos e anos com estas figuras humanas em nossa volta e nunca perguntamos seus nomes.

Outras duas personagens das ruas da Cidade Velha eram a Arara e sua filha.

A Arara era uma senhora magrinha e baixa. Tinha um nariz adunco, grande. Daí seu apelido. Morava com a filha, na época uma adolescente, ao lado do Cine Guarani, na Praça Felipe Patroni, numa casa baixa, com várias janelas.

Segundo uma lenda do bairro, a Arara tinha sido, quando jovem, uma bem casada professora. Seu marido, porém, teria morrido, e, ela destrambelhara a tal ponto que se aposentou.

O certo é que ela, todos os dias, houvesse um sol escaldante ou uma chuva pesada, se vestia como se tivesse de ir para seu trabalho.

E levava, junto com ela, a pobre filha, que, aos poucos foi também se tornando desequilibrada. As duas andavam juntinhas, a Arara com um guarda-chuva na mão. Ela o usava tanto para se proteger do sol e da chuva como para atacar os moleques que passavam por ela e a provocavam: – Oi, Arara!

“Seo” Firmo, “Seo” Chico e “Seo” Elias

Walter Bastos é um paraense que vive nos Estados Unidos. Um tipo falante, muito entusiasmado com a vida, assim o descrevem seus amigos.

Através de e-mails, Walter recordou de pessoas dos locais por onde passava, e das pessoas com as quais conviveu na Cidade Velha, na sua meninice, nos anos de 1950.

“ Descendo a Rua Gurupá, em direção ao Porto do Sal, gente encontrava a loja Metralhadora e o Armazém do Seu Monteiro., que vendiam ferragens e assemelhados.

Chegando ao Porto do Sal tínhamos o nosso mercado de carne, construido naqueles calçadões com pedras portuguesas.

Fui muitas vezes lá. Às vezes, com meu pai. Outras, sozinho. Ainda ouço os açougueiros batendo com seu facões gritando:

– “Olha a viração! Aproveite que o preço baixou!”.

Geralmente essa farra começava às 11 horas.

Atrás do mercado ficava a ponte onde se subia nas lanchas em viagens para os municípios vizinho.

Perto delas, encostavam as canoas trazendo o carvão.

Também lá eu assinava meu ponto, comprando meu paneirozinho, à espera da hora do almoço.

Voltando para casa, passava em frente à oficina do “seo” Firmo. Figura conhecidíssima. Senhor alto, tipo marcante. Morava na Doutor Assis em frente à barbearia do “seo” Oscar, onde eu cortava o cabelo.

O único defeito desse rei da tesoura do bairro, era ser papão doente.

O “seo” Firmo tinha dois filhos, o Chico e Raimundo Deoteto.

O primeiro, abraçou o trabalho com o pai.

O segundo, ingressou na Aeonáutica, indo até o posto de tenente-coronel-aviador.

Tinham duas irmãs: Nazinha e Carminha. Moças recatadas. Tipicas daquela época.

Antes de chegar à minha casa, passava na frente do posto policial da Cidade Velha.

Prédio pequeno, com uma sala para os escrivães e uma única cela.

Pitorescamente, os guardas ficavam sentados na frente do posto, numas cadeiras de madeira escura. Parece que as vejo.

Em frente, havia a mercearia da tia Maria, mulher do “seo” Chico, que mais tarde passou aquele comércio para a dona Gracinda, sua filha. Tempos inesquecíveis. Escrever isso me toca. Nostalgia, saudade, sei lá o que.

But the life must go on… o nosso clube Pinga-Fogo.

Era capaz de fazer frente aos grandes, na época de ouro do pingue-pong, na nossa Belém.

Um excelente raquetista do clube era o Lindolfo Ayres, médico pneumologista bastante conceituado na época.

Ele se casou com a Linda. O casal teve um filho, conhecido por Feola, dá pra entender porque…, que veio a ser um grande economista. Mas, se não me falha a memória, morreu precocemente.

O carnaval começava para nós, quando o bloco de carnaval do bairro ‘Eles Surgiram a Jato’ fazia seu primeiro desfile pelas ruas do bairro.

O Saracura, o Marinheiro, e, outras figuras carimbadas do bairro eram responsáveis pela existência do bloco que fazia do bar do “seo” Joaquim e da dona Otilia, sua sede própria.

O bar era o preferido da turma que iria se formar poucos anos mais tarde – eu, Carmelino, Bené, Zé Maria, Renato, Gil – por ter um bife a cavalo, capaz de recolocar as energias de qualquer mortal.

Na época de São João, o escolhido para dançar com a vassoura nas nossas quadrilhas era o “seo” Elias, pela sua desenvoltura, estimulada por alguns cubas-libres.

Ele era uma figura conhecedíssima do bairro, um tipo baixo, gordo, com voz rouca. Tinha dois filhos, Massoud e o Judeu. Que nome!

A professora Teresinha de Jesus Genu Cardoso era ligada ao “Exame de Admissão”, nos cursos das escolas.

(Ilustração: Livro das associações dos moradores do bairro mais antigo de Belém)

The Old City, Forever Alive in the Memories of Belém’s Residents

The year was 2008. At that time, the challenge was to decide who would write the book dedicated to Belém’s oldest neighborhood.

It was there that the city first began to take shape, when the members of Francisco Caldeira Castelo Branco’s expedition built the Fort of the Castle in 1616.

The book was organized by the neighborhood residents’ association, CiVViva – Cidade Velha, Cidade Viva (Old City, Living City), together with UFPA’s Center for the Memory of the Builders of the Amazon.

The approach adopted for producing the book was a bold one.

The first decision was that the book would be written by any resident of Belém who could demonstrate the ability to produce clear and accurate texts. Nothing more was required. Age and educational background were irrelevant.

Applications were opened at the Casa da Linguagem (House of Language), and a group of twenty participants was selected.

They ranged in age from teenagers to senior citizens, and their educational backgrounds varied from high school to master’s degrees.

To prepare them for writing the book, the group attended a workshop held in the auditorium of the Casa da Linguagem.

The second decision was to invite former residents of Cidade Velha who had lived outside Pará for many years to share the memories of the neighborhood they had preserved throughout their lives.

Three natives of Pará, who had been living away from the state for more than fifty years, sent their recollections from São Paulo, Australia, and the United States.

When the book was published, the names of these new writers appeared on its cover.

Nearly twenty years later, almost all of them had established careers in fields connected with universities.

One of them became a book editor.

Everything they wrote can still be found in the few remaining copies available for sale at CiVViva.

As for the accounts sent by the three former residents living outside Pará, they are remarkable evidence of the human capacity to preserve memories of people and events—especially those from childhood—regardless of how much time has passed or how far one may be from the place where those memories were formed.

You are about to read those recollections.

They are transcribed below.

Maria dos Gatos, Ether Sniffer, and Egg Sucker

Aurilene Sena was born and raised on what was then Santarém Street, now Rodrigues dos Santos Street, behind Saint John Church, where she lived until early adulthood. She has lived in São Paulo for more than fifty years.

From Belém, she preserved memories of Cidade Velha’s colorful street characters, the neighborhood vendors, and the Guarani Movie Theater.

“I remember Maria dos Gatos (Maria of the Cats), Cheira Éter (Ether Sniffer), and Chupa Ovo (Egg Sucker). He had thin lips drawn tightly inward, something that seemed quite funny to us children.

I also remember the Rala-rala. He pushed a cart carrying several bottles filled with juices made from our regional fruits and, in the middle of the cart, a huge block of ice against which he rubbed a small aluminum scoop.

With it, he shaved off tiny flakes of ice and dropped them into glasses already filled with those delicious fruit juices. They tasted wonderful.

As he walked through the streets, he would shout:

‘Rala-rala! Here comes the Rala-rala!’

I also remember the tapioca vendor, who balanced an enormous tray on his head, loaded with small tapioca cakes filled with grated coconut and soaked in coconut milk.

They were wonderfully soft and were served on small rectangular pieces of banana leaf.

The contrast between the green leaves and the brilliant white tapioca cakes was beautiful.

The vendor announced his arrival in a sing-song voice:

‘Tapioca! Fresh little tapiocas!’

The Guarani Movie Theater was the small neighborhood cinema where all of us children went.

Its seats were simple wooden chairs without upholstery.

There we watched many films produced by Atlântida Studios, including the famous chanchadas starring Oscarito, Grande Otelo, and Cyl Farney, as well as countless Westerns.

During Holy Week, the theater always screened a film about the life and death of Jesus.

Sometimes the film reel would snap in the middle of the screening, and we had to wait while it was repaired before we could watch the rest of the movie.”

The Spaniard, Ioiô, the Macaw Woman, and Her Daughter

Marlene Coimbra was also born on Rodrigues dos Santos Street. She attended Santa Rosa School before moving to São Paulo more than fifty years ago.

Later, she settled in Australia, where she became an Australian citizen.

Yet she never forgot the colorful street characters who populated her childhood in Cidade Velha.

“I remember four of Cidade Velha’s street characters: the Spaniard, Ioiô, and the Macaw Woman with her daughter.

The Spaniard was always impeccably dressed. He wore trousers with a belt, a shirt, and leather shoes. Although we saw him almost every day, we never learned his real name or where he lived.

We never knew whether he had a family or friends, nor did we ever discover why he was called ‘the Spaniard.’ He was always alone, wandering back and forth, heaven knows for what purpose.

Whenever he passed by, the neighborhood boys would shout:

‘Spaaaniard!’

He would become furious and throw stones at them.

Ioiô was quite different. Every evening, around eight o’clock, he walked through our streets selling white corn porridge made with coconut milk—the same delicacy we prepared for the June Festivals and which is still sold year-round at the Ver-o-Peso Market.

What made him interesting was the way he sold it.

He pushed a large wooden handcart carrying an enormous pot of porridge. Mounted on the cart was also a gas-powered lantern that lit the dimly illuminated streets through which he walked.

We called him Ioiô because he announced his arrival by shouting:

‘Here comes Ioiô! Passing through!’

As soon as the neighbors heard his familiar call, they hurried outside carrying bowls, gourds, cups, or whatever they had at hand.

We never learned his real name, where he lived, whether he had a family, or what he did during the day.

We spent years surrounded by these remarkable people and never once thought to ask their names.

Two other memorable figures from Cidade Velha were the Macaw Woman and her daughter.

The Macaw Woman was short and very thin. She had a large hooked nose, which earned her the nickname.

She lived with her daughter, then a teenager, in a low house with many windows beside the Guarani Movie Theater, on Felipe Patroni Square.

According to neighborhood legend, she had once been a happily married schoolteacher. After her husband died, however, she reportedly suffered a severe emotional breakdown and retired.

Whatever the truth may have been, every single day—whether beneath the blazing sun or in pouring rain—she dressed as though she were going to work.

She always took along her unfortunate daughter, who gradually also began to lose her mental balance.

The two walked everywhere together, the Macaw Woman carrying an umbrella. She used it both to shield herself from the sun and rain and to chase away the neighborhood boys who teased her, shouting:

‘Hey, Macaw Woman!’

Mr. Firmo, Mr. Chico, and Mr. Elias

Walter Bastos, a native of Pará who now lives in the United States, is described by his friends as talkative and full of enthusiasm for life.

In a series of e-mails, Walter recalled the places he frequented and the people with whom he lived in Cidade Velha during his childhood in the 1950s.

“Walking down Gurupá Street toward Porto do Sal, we would pass the Metralhadora hardware store and Mr. Monteiro’s warehouse, both of which sold hardware and related goods.

At Porto do Sal stood our neighborhood meat market, built beside the Portuguese-stone sidewalks.

I went there many times—sometimes with my father, sometimes by myself.

I can still hear the butchers striking their cleavers and shouting:

‘Fresh bargain cuts! Prices are down!’

The excitement usually began around eleven o’clock in the morning.

Behind the market was the pier where passengers boarded launches bound for nearby towns.

Nearby, canoes loaded with charcoal would tie up.

I also made sure to stop there to buy my little basket of food while waiting for lunchtime.

On my way home I passed Mr. Firmo’s workshop. He was a well-known figure—a tall man with a striking appearance.

He lived on Doutor Assis Street, across from Mr. Oscar’s barbershop, where I used to get my hair cut.

The only flaw of that king of neighborhood barbers was that he was an incurable gossip.

Mr. Firmo had two sons, Chico and Raimundo Deoteto.

Chico joined his father in the family business.

Raimundo entered the Brazilian Air Force and eventually became a lieutenant colonel and pilot.

They also had two sisters, Nazinha and Carminha—modest young women, typical of those days.

Before reaching my house, I would pass the Cidade Velha police station.

It was a small building with one office for the clerks and a single jail cell.

Picturesquely, the policemen spent their time sitting in front of the station on dark wooden chairs. I can still picture them.

Across the street stood Aunt Maria’s grocery store. She was Mr. Chico’s wife and later handed the business over to her daughter, Mrs. Gracinda.

Those were unforgettable days. Writing about them moves me. Nostalgia, longing—I don’t even know what to call it.

But life must go on…

Then there was our Pinga-Fogo Table Tennis Club.

In Belém’s golden age of table tennis, it could compete with the city’s biggest clubs.

One of its finest players was Lindolfo Ayres, a highly respected pulmonologist.

He married Linda, and they had a son known as Feola—you can probably imagine why—who later became an outstanding economist. If memory serves me right, however, he died much too young.

For us, Carnival officially began when the neighborhood parade group Eles Surgiram a Jato (‘They Arrived Like a Jet’) made its first march through the streets.

Saracura, Marinheiro, and several other legendary neighborhood figures kept the group alive, using Mr. Joaquim and Mrs. Otilia’s bar as its headquarters.

The bar was the favorite gathering place of the group that would later include me, Carmelino, Bené, Zé Maria, Renato, and Gil, thanks to its magnificent bife a cavalo, capable of restoring the strength of any exhausted soul.

During the June Festival celebrations, the man chosen to dance with the broom in our traditional quadrilha dances was Mr. Elias, whose remarkable grace was helped along by a few Cuba Libres.

He was another legendary neighborhood figure—a short, heavyset man with a hoarse voice.

He had two sons, Massoud and Judeu. What unusual names!

Teacher Teresinha de Jesus Genu Cardoso was closely associated with the old Admission Examination preparatory courses offered by the schools.”

(Illustration: Book of the residents’ associations of Belém’s oldest neighborhood.)

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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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