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A censura à matéria sobre Carlos Mendes, no jornal onde ele trabalhava

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
03/07/2026
in Colunas
A censura à matéria sobre Carlos Mendes, no jornal onde ele trabalhava

Imagem: coluna censurada do jornalista e escritor Oswaldo Coimbra.

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Durante 12 anos a direção do jornal Diário do Pará teve um comportamento irrepreensível, no quisito respeito à liberdade de expressão, diante do autor deste texto, então responsável pela coluna Saga dos Construtores, publicada semanalmente pelo jornal.

A coluna nascera por recíproco interesse.

Do jornal, que julgou interessante dispor para publicação de material de pesquisa histórica jornalística.

E do Núcleo de Memória dos Construtores da Amazônia, da Faculdade de Engenharia Civil, que funcionava sob a responsabilidade do autor deste texto.

E que, durante três décadas, iria produzir aquele tipo de material jornalístico, voltado para os 400 anos do passado de Belém.

Publicando-o, contudo, apenas em livros, com tiragens dirigidas exclusivamente ao público interno daquela faculdade.

Quando a coluna completou 4 anos, era natural que homenageasse aquele exitoso convívio com o jornal.

Um texto foi preparado sobre seu repórter especial Carlos Mendes, com a intenção de, através dele, prestar um tributo a toda a Redação do jornal.

Seu título “A identidade de um grande jornalista”,

Com a mesma intenção, no texto foi incluída uma referência especial ao designer Jobson Cruz, que vinha se responsabilizando pela sempre atraente programação visual da coluna.

Jobson, ao receber os originais do texto, de modo inteligente, concebeu um design criativo.

A aparência da coluna seria a de uma carteira de identidade, com foto de Mendes.

Pronta para publicação, aconteceu com a coluna o que parecia inimaginável: ela foi censurada pela direção do Diário do Pará.

Incrédulo e chocado quem, na Redação do jornal, já estava acostumado a vê-la estampada nas páginas do segundo caderno, tentou entender o que, naquele texto, poderia ter levado àquela decisão extrema

Transformamos esta inquietação numa pergunta dirigida a quem achamos que, na Redação, tinha mais condição de respondê-la: o próprio Carlos Mendes.

Não temos condição de provar o que Mendes nos disse, naquela ocasião, porque, obviamente, sequer pensamos em gravar.

Tampouco sabemos de que provas ele próprio dispunha para fornecer sua explicação.

A explicação de que a censura à coluna ocorreu porque nela apareceu uma denúncia que ele, Mendes, tinha feito contra a Vale do Rio Doce.

Pois, a empresa, acrescentou Mendes, pagava todo mês ao Diário do Pará, cerca de 500 mil reais, para que nada fosse publicado nele contra ela.

Esta explicação, extremamente grave, logo, nos lembrou de um dogma do Projeto Folha, implantado, como enorme êxito, no jornal paulista, nos anos de 1980.

O dogma de que só existe liberdade de imprensa, quando um jornal atua numa economia que lhe permite dispor de amplo mercado de anunciantes.

De tal forma que, assim, o jornal não precise temer a perda de sua renda por publicar determinada matéria.

Pois logo encontrará anunciantes dispostos a comprar seus espaços de publicidade disponíveis.

Uma realidade que, a bem da verdade, é necessário admitir, só existe nas economias dos estados do eixo Rio/São Paulo.

Trata-se, de qualquer forma, de um dogma que incita à reflexão das consequências da inexistência deste tipo de mercado de anunciantes, nas cidades que estão fora daquele eixo, como Belém.

Nestas cidades, os jornais, para subsistirem, são obrigados a ignorarem o Código de Ética dos Jornalistas?

E até a vender seu silêncio?

Quando, então, seriam pagos para não informar?

Lucrando com o prejuízo causado a seus leitores pela ocultação de informações relevantes para eles?

Os donos destes órgãos de (des)informações poderiam, em defesa deles próprios, alegar que esta prática lhes permite manter os empregos de seus funcionários?

Diante de tantas perguntas capazes de abalar quem tem uma visão altruista do Jornalismo, temos duas únicas certezas.

A de que a coluna foi censurada naquela semana.

E a de que voz de Mendes, na coluna, foi calada.

Por isto, ainda sem podermos entender completamente o que aconteceu com a coluna, naquela oportunidade, vamos publicá-la agora, a seguir.

Quando se completa um mês da morte de Carlos Mendes.

Fazendo, por fim, a homenagem a ele que não pudemos fazer, 13 anos atrás.

(Ilustração: A foto de Mendes, na matéria censurada)

A identidade do grande jornalista

“Estou preparado para Jornalismo em novos modos de entrega”. Nesta frase, ficou sintetizada a reação de Clóvis Rossi, correspondente internacional da Folha de São Paulo, à notícia de que o Washington Post havia sido vendido para Jeff Bezos.

No jornal atuaram Bob Woodward e Carl Bernstein, dois repórteres que, com suas matérias investigativas, provocaram a única renúncia de um presidente, Richard Nixon, ocorrida na História dos Estados Unidos, nos anos de 1970.

A venda do diário norte-americano foi provocada por um período anterior de sete anos de déficit.

Bezos, seu comprador, é proprietário da Amazon.com, empresa de comércio que vende seus produtos através da internet.

Por isto, a negociação do órgão, considerado o mais importante da recente História Universal do Jornalismo Impresso, teve o significado simbólico de rendição definitiva dos antigos jornais diários à força da internet, pela qual eles vêm sendo abalados nos últimos anos.

A capitulação do jornal, ícone dos combatentes pela liberdade de expressão jornalística, levou Rossi a escrever um artigo intitulado “Obrigado a torcer por Bezos”.

Nele, Rossi relembra sua carreira profissional de cinco décadas para, em seguida, declarar: o importante para ele, hoje, é manter a qualidade de seu trabalho, não importando o meio de comunicação no qual venha a ser veiculado.

Deste modo, o calejado repórter destacou a identidade do trabalho de um jornalista, separando-a da mídia por meio da qual ele chega aos leitores.

Tal identidade, sem dúvida, existe nos trabalhos de Rossi, assim como nos dos dois repórteres do Washington Post.

E existe também no trabalho de, pelo menos, um jornalista do Pará, entre aqueles acompanhados por nós nas últimas três décadas: Carlos Mendes.

Em seus trabalhos, todos estes jornalistas repartem as mesmas características.

Eles atuam em alguma ordenação social, ideológica, econômica, e, política, dentro do regime capitalista, na qual seus veículos impressos são considerados como integrantes da chamada Grande Imprensa.

Não são profissionais de órgãos marginais à ordem socioeconômica estabelecida na maioria dos países do Ocidente capitalista.

Portanto, atuam sem a liberdade de quem não precisa gerar lucro para o patrão com seu trabalho.

Apesar disto, todos se mantêm por muitos anos no campo sempre conflitado das reportagens de denúncia, físico e emocionalmente desgastante.

No caso de Mendes, há uma década e meia, como correspondente de O Estado de São Paulo, no Pará.

Suas matérias, frequentemente, são festejadas por seus colegas mais críticos de Belém.

Em 2009, por exemplo, Augusto Barata registrou em seu blog:

“O jornalista Carlos Mendes enviou para O Estado de S. Paulo o relato sobre as estripulias que levaram o juiz eleitoral Sérgio Lima a cassar a diplomação do prefeito reeleito de Belém, Duciomar Costa (PTB), o nefasto Dudu.

Duciomar é acusado de crime eleitoral e da decisão ainda cabe recurso”.

Outro traço comum entre estes jornalistas é o da conquista de reconhecimento profissional em suas comunidades através do esforço para cobrir com dignidade e independência os acontecimentos diários.

E não através da disputa por honrarias e prêmios em concursos de reportagens.

Pois, importa-lhes mais poder influir sobre a realidade que retratam.

O que, às vezes, transparece até na internet.

No ano passado, a sindicalista Vera Paoloni postou em seu blog, um texto sobre uma reportagem de Mendes.

Nela, Mendes tinha revelado que o Pará deixa de arrecadar 5 bilhões de reais, anualmente, por não taxar mineradoras que utilizam suas águas.

Vera informou:

“O texto era pra ter saído, hoje, no Estadão, mas não foi publicado.

O Diário do Pará publicou na página 3”.

Com seu comentário, Vera deixou registrado outro traço comum a estes jornalistas: eles trabalham nos limites da liberdade de expressão consentida por seus patrões, procurando sempre ampliá-la, já que mexem com assuntos considerados perigosos.

Dias após Vera mencionar Mendes em seu blog, ele foi convidado por seu colega Marcelo Bacana a conceder-lhe uma entrevista para o Programa do Bacana.

Depois da entrevista, Marcelo informou através de seu blog: Mendes tratou da água utilizada pela Companhia Vale do Rio Doce na lavagem de minério, revelando que a empresa nada paga pelo uso dela.

Marcelo prosseguiu: “Outro ponto levantado pelo jornalista: algumas empresas jogam essa água utilizada para lavar o minério nos rios que circundam Barcarena, poluindo os rios e levando contaminação a milhares de pessoas que vivem na região”.

Ele concluiu:

“Segundo Carlos, o número de doenças causadas por conta desse despejo de água contaminada é crescente na população”.

Esta integração de Mendes a um grupo especial de jornalistas – a dos que envelhecem nas ruas perseguindo informações escondidas da opinião pública – é lembrada aqui como homenagem aos profissionais, igualmente íntegros, dedicados e talentosos, que trabalham neste jornal.

Entre estes profissionais, especialmente os que ajudaram a publicar a Saga, nos últimos quatro anos, como o designer Jobson Cruz.

A semana em que a coluna comemora mais um aniversário foi marcada pela venda do Washington Post, é verdade.

Mas, como bem assinalou Clóvis Rossi, o destino daquele jornal foi ditado pelas transformações provocadas pela internet nas empresas de comunicação.

E só aumenta a confiança na perenidade do valor do exemplo de trabalhos como os dele. Como os dele e os de Woodward, Bernstein e Mendes.

The Article About Carlos Mendes That Was Censored by Diário do Pará

For twelve years, the management of the newspaper Diário do Pará maintained an impeccable record regarding freedom of expression in its dealings with the author of this article, who was then responsible for the weekly column Saga of the Builders, published by the newspaper.

The column had been created out of mutual interest.

On the newspaper’s part, there was a desire to publish material based on historical journalistic research.

On the part of the Center for the Memory of the Builders of the Amazon, within the School of Civil Engineering, which was under the direction of this article’s author, there was an opportunity to disseminate a type of journalistic research that the Center had been producing for three decades, focusing on the 400-year history of Belém.

Until then, however, this material had appeared only in books printed in limited editions intended exclusively for the School’s internal readership.

When the column reached its fourth anniversary, it seemed only natural to celebrate its successful partnership with the newspaper.

An article was therefore prepared about the newspaper’s special reporter, Carlos Mendes, as a tribute not only to him but to the entire editorial staff.

Its title was “The Identity of a Great Journalist.”

With the same purpose, the text also included a special acknowledgment of designer Jobson Cruz, who had consistently been responsible for the column’s attractive visual presentation.

Upon receiving the manuscript, Jobson conceived an ingenious design.

The column was to resemble an identity card featuring a photograph of Carlos Mendes.

Ready for publication, the column met with what had seemed unimaginable: it was censored by the management of Diário do Pará.

In disbelief and deeply shocked, those in the newsroom who had grown accustomed to seeing it published every week in the newspaper’s second section tried to understand what, in that article, could possibly have led to such an extreme decision.

We turned this perplexity into a question directed to the person we believed was best positioned to answer it within the newsroom: Carlos Mendes himself.

We have no way of proving what Mendes told us on that occasion because, quite naturally, it never occurred to us to record the conversation.

Nor do we know what evidence he himself possessed to support the explanation he gave.

According to Mendes, the column had been censored because it mentioned a complaint he had made against Vale do Rio Doce.

The company, he added, paid Diário do Pará approximately five hundred thousand reais every month to ensure that nothing critical of it would be published in the newspaper.

This explanation, of extraordinary seriousness, immediately reminded us of one of the fundamental principles of the Projeto Folha, successfully implemented by the São Paulo newspaper Folha de S.Paulo during the 1980s.

The principle that genuine freedom of the press can exist only when a newspaper operates in an economic environment that provides it with a broad advertising market.

In such circumstances, the newspaper need not fear losing advertising revenue as a consequence of publishing a particular story.

If one advertiser withdraws, others will be willing to purchase the available advertising space.

In fairness, however, it must be acknowledged that such a reality exists only in the economies of the Rio de Janeiro–São Paulo axis.

Even so, this principle invites reflection on the consequences of the absence of such an advertising market in cities outside that axis, such as Belém.

In such cities, are newspapers forced to ignore the Journalists’ Code of Ethics simply to survive?

Are they even compelled to sell their silence?

Can they be paid not to inform?

Can they profit by withholding information that is relevant to their readers?

Could the owners of such instruments of “(dis)information” argue, in their own defense, that these practices are necessary to preserve their employees’ jobs?

Faced with so many questions capable of unsettling anyone who holds an idealistic view of journalism, we are left with only two certainties.

The first is that the column was censored that week.

The second is that Carlos Mendes’s voice was silenced within it.

Still unable to fully understand what happened to the column on that occasion, we now publish it below.

One month after the death of Carlos Mendes.

And, at last, we pay him the tribute that we were prevented from offering thirteen years ago.

(Illustration: The photo of Mendes in the censored article.)

The Identity of a Great Journalist

“I am prepared for journalism in new forms of delivery.” With this statement, Clóvis Rossi, then international correspondent for Folha de S.Paulo, summed up his reaction to the news that The Washington Post had been sold to Jeff Bezos.

The newspaper had once been home to Bob Woodward and Carl Bernstein, the two investigative reporters whose work led to the only resignation of a President in the history of the United States—Richard Nixon—during the 1970s.

The sale of the American daily followed seven consecutive years of financial losses.

Its buyer, Jeff Bezos, was the owner of Amazon.com, the online retail company.

For that reason, the sale of what had become perhaps the most influential newspaper in the modern history of print journalism symbolized the definitive surrender of traditional daily newspapers to the growing power of the internet, whose impact had shaken the industry in recent years.

The capitulation of a newspaper that had become an icon of the struggle for press freedom prompted Rossi to write an article entitled “Thank You for Making Me Root for Bezos.”

In it, Rossi reflected on his five decades as a journalist before concluding that what mattered most to him was preserving the quality of his work, regardless of the medium through which it reached its readers.

In doing so, the veteran reporter underscored the true identity of journalism, separating it from the medium that delivers it to the public.

That identity unquestionably exists in Rossi’s work, as it does in that of the two Washington Post reporters.

It is also present in the work of at least one journalist from Pará among those whose careers we have followed over the past three decades: Carlos Mendes.

All of these journalists share the same defining characteristics.

They work within a social, ideological, economic, and political order shaped by capitalism, where their newspapers belong to what is commonly known as the mainstream press.

They are not journalists working for media organizations that exist outside the prevailing socioeconomic order of most Western capitalist societies.

Consequently, they do not enjoy the freedom of those who are under no obligation to generate profits for an employer through their work.

Even so, they have remained for many years in the perpetually contentious field of investigative reporting, an occupation that is physically and emotionally exhausting.

In Mendes’s case, this had been true for fifteen years as Pará correspondent for O Estado de S. Paulo.

His reports were frequently praised by some of Belém’s most critical journalists.

In 2009, for example, Augusto Barata wrote on his blog:

“Journalist Carlos Mendes sent O Estado de S. Paulo a report on the maneuvers that led Electoral Judge Sérgio Lima to revoke the certification of Belém’s re-elected mayor, Duciomar Costa (PTB), the infamous Dudu. Duciomar was accused of electoral crimes, although the ruling was still subject to appeal.”

Another characteristic shared by these journalists is that they earned professional recognition within their communities through their commitment to covering daily events with integrity and independence.

They sought neither honors nor awards in journalism competitions.

What mattered to them was the possibility of influencing the reality they portrayed.

At times, this influence could even be seen on the internet.

Last year, labor activist Vera Paoloni posted on her blog about one of Mendes’s reports.

In it, he revealed that the State of Pará loses approximately five billion reais in annual revenue because it does not charge mining companies for the water they use.

Vera wrote:

“The article was supposed to appear today in Estadão, but it wasn’t published. Diário do Pará printed it on page three.”

With this comment, Vera inadvertently highlighted yet another trait common to journalists like Mendes: they work within the limits of the freedom of expression allowed by their employers while constantly striving to expand those limits, since the subjects they investigate are often considered sensitive or dangerous.

A few days after Vera mentioned Mendes on her blog, fellow journalist Marcelo Bacana invited him for an interview on Programa do Bacana.

After the interview, Marcelo reported on his own blog that Mendes had discussed the water used by Companhia Vale do Rio Doce in processing mineral ore, revealing that the company paid nothing for its use.

Marcelo continued:

“Another point raised by the journalist is that some companies discharge the water used in ore processing into the rivers surrounding Barcarena, polluting these waterways and contaminating thousands of people who live in the region.”

He concluded:

“According to Carlos, the number of illnesses caused by the discharge of this contaminated water has been steadily increasing among the local population.”

Mendes’s place among that distinguished group of journalists—those who grow old in the streets pursuing information deliberately hidden from public opinion—is recalled here as a tribute to the equally honorable, dedicated, and talented professionals who work for this newspaper.

Among them are, in particular, those who helped publish the Saga column over the past four years, especially designer Jobson Cruz.

It is true that the week in which this column celebrates another anniversary coincides with the sale of The Washington Post.

But, as Clóvis Rossi so aptly observed, that newspaper’s fate was determined by the profound transformations that the internet has brought to the communications industry.

What remains undiminished is our confidence in the enduring value of journalism exemplified by professionals such as Rossi.

And by Woodward, Bernstein, and Mendes.

Tags: censuraDestaqueOswaldo Coimbra
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Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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