Uma exibição pública de beleza Art Nouveau, oferecida num prédio Neoclássico.
Esta sofisticada apreciação de dois estilos de arte foi vista por milhares de pessoas que, ao longo de décadas, passaram pela calçada da Pharmácia Dermol, hoje Farmácia República, na praça de mesmo nome, em Belém.
E tiveram a curiosidade de observar, ainda que de relance, os detalhes, externos e internos, do prédio, construído em 1913, como informa texto da página do Acervo Histórico Farmacêutico, postado na internet.
O prédio foi projetado sob influência da Belle Époque, em pleno ciclo áureo da borracha.
Tem, ainda hoje, três andares.
E, desde sua inauguração, dispôs de um elevador.
A decoração da sua fachada ainda se compõe de peças em metal, usadas na sustentação de seu toldo.
E de peças em mármore, como um ramalhete com flores.
Detalhes que foram registrados pela pesquisadora Célia Bassalo, em sua obra “Art Nouveau em Belém”
O ramalhete de mármore, de acordo com informações que constam nele próprio, lapidadas, foi produzido em Lisboa, pelo artista Firmino Rodrigues, no endereço de sua oficina: Rua Bem-Formoso.
Daquela oficina saíam belos trabalhos, em nada, inferiores aos produzidos em outros países, garantiu a revista portuguesa “A Construção Moderna”, em sua 464ª edição, de 25 de abril de 1906.
Também em 1906, Firmino Rodrigues projetou o jazigo de uma capela, e, este seu trabalho foi publicado numa página daquela revista.
Se externamente, a farmácia contou com ornamentos, internamente, ela foi equipada com mobiliário de madeira em cor branca e vidro, com iluminação lateral.
O mobiliário tinha outros detalhes.
Na sua parte alta da frente, em alto relevo na madeira, foram esculpidos nomes de remédios como Asthmina, Nervonina, Sezonal, Boldoina, e, Vimmo Fialho.
Todos desenvolvidos pelo farmacêutico português Henrique Eduardo Nunes dos Santos, em laboratório do 1º andar do prédio.
Onde também era produzidas outras medicações: Dermol, Blenol, Lindacutis, Visuol, Dermogene, Morfeol e Dermolina.
Henrique havia se formado pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, em 1889.
Foi ele quem fundou a Pharmácia Dermol, em 1906, quando tinha 40 anos de idade.
Instalou-a inicialmente num prédio térreo, que ele passou a usar, depois, como depósito de medicamentos da farmácia transferida para o novo prédio, ao lado do antigo, e, inaugurado, em 1913.
Estas informações sobre Henrique e sobre sua farmácia o Acervo Histórico Farmacêutico obteve junto ao neto dele, Gilberto Ferreira de Carvalho.
Para que serviam os remédios fabricados pela farmácia?
Em 1910, a Dermol veiculou propagandas de três deles, na publicação “Indicador Ilustrado do Pará”
Blenol foi apresentado como “o único e verdadeiro específico das doenças das mucosas dos órgãos genito-urinários, nos homens e nas senhoras”.
Dermol, como “precioso e único específico para doenças da epiderme: impinges, herpes, frieiras, eczemas, lúpus etc”.
Já do Elixir de Chaulmoogra, a propagando assegurava que se tratava de uma descoberta perfeita.
Ainda hoje a chaulmoogra, cujo nome científico é Hydnocarpuskurzii, é vista como uma planta capaz de produzir efeitos terapêuticos.
Pesquisadores da respeitada Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz – publicaram, em 2008, resultados de seus estudos sobre a planta no site de ensaios científicos Scielo, sob o título:
“O óleo de chaulmoogra como conhecimento científico: a construção de uma terapêutica antileprótica”.
Esta terapêutica, contudo, cento e quinze anos antes, vinha sendo estudada pela Pharmácia Dermol, de Belém.
Dizia sua propaganda:
“Todos os médicos que se têm dedicado ao estudo e ao tratamento de lepra reconhecem como melhor e talvez único medicamento para esta doença o óleo de chaulmoogra.
Porém, todos reconhecem também a dificuldade de sua aplicação por o óleo não ser tolerado pelo estômago, na dose e tempo necessários para o tratamento”.
O grande avanço obtido no laboratório de Belém, propagava o anúncio da farmácia, foi a divisão dos princípios ativos da chaulmoogra.
O que tornou possível a fabricação do elixir, tendo como seus componentes o óleo da chaulmoogra mais: extrato de salsaparrilha, bicarbonato de sódio, tintura de genciana (outra planta medicinal), elixir de pepsina (enzima que ajuda a digerir as proteínas da alimentação) etc.
Desta fusão, resultou, segundo a propaganda, um líquido que ajudava à digestão.
Agradável e tônico.
As propagandas das farmácias de Belém, naquela época, mereciam crédito?
A julgar pelo que escreveu o conceituado pintor e historiador Theodoro Braga, em 1916, no “Guia do Estado do Pará”, as farmácias mereciam crédito e gratidão:
“Espalhadas por toda a cidade, servindo com cuidado, asseio e rapidez, as farmácias de Belém têm o máximo escrúpulo no preparo de seus medicamentos.
Na maioria, têm elas um serviço noturno de aviamento de prescrições médicas, atendendo desse modo á clientela em qualquer hora da noite”.
Quanto à chaulmoogra, hoje, sua utilização, no passado, para o tratamento de lepra, é compreendida como decorrente da presença na planta de ácidos graxos que se mostraram eficazes contra o Mycobacterium leprae.
Atualmente, o óleo continua sendo utilizado para aplicações em cuidados com a pele, aromaterapia e outras práticas holísticas.
A história da farmácia ligada ao seu farmacêutico fundador terminou em 1919, quando Henrique se mudou com a família para a Cidade do Rio de Janeiro.
A Dermol passou a pertencer à firma Albino Fialho & Cia.
Naquele ano, o Diário Oficial da União publicou a relação de medicamentos que a firma obteve autorização para comercializar.
Mas ela também não se manteve como proprietária da farmácia.
O novo dono se chamava Isaac Elias Israel.
Graças a ele e a seus descendentes, o prédio da farmácia escapou da fúria destrutiva que atingiu o acervo arquitetônico do Pará, quando a Ditadura Militar se implantou no Brasil, em 1964.
Elias e seus parentes o preservaram, sem contar com nenhum tipo de apoio oficial.
Nem por isto, a farmácia deixou de continuar a sofrer mudanças.
Inicialmente, mudou seu nome.
Tornou-se a Farmácia Central.
Em 1967, passou a se chamar Farmácia República.
O pior, contudo, aconteceu, em 2017.
A bela Pharmácia Dermol se tornou loja de conveniência.
*Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista
(Ilustração: Interior da Pharmácia Dermol)
English into translation (Tradução para o inglês)
The Refined Beauty of a Building Publicly Displayed in Belém
A public exhibition of Art Nouveau beauty, offered within a Neoclassical building.
This sophisticated appreciation of two artistic styles was seen by thousands of people who, over decades, walked past the sidewalk of Pharmácia Dermol—today Farmácia República—at the square of the same name, in Belém.
And many felt compelled to observe, even if only in passing, the internal and external details of the building, constructed in 1913, as described on the website of the Historical Pharmaceutical Archive.
The building was designed under the influence of the Belle Époque, at the height of the rubber boom.
It still has three floors today.
And since its inauguration, it has had an elevator.
The decoration on its façade still includes metal pieces used to support its awning,
and marble elements, such as a bouquet of flowers.
These details were documented by researcher Célia Bassalo in her work Art Nouveau em Belém.
The marble bouquet, according to information carved into it, was produced in Lisbon by artist Firmino Rodrigues, at the address of his workshop: Rua Bem-Formoso.
From that workshop came beautiful works, in no way inferior to those produced in other countries, assured the Portuguese magazine A Construção Moderna in its 464th issue, dated April 25, 1906.
Also in 1906, Firmino Rodrigues designed the mausoleum of a chapel, a work that was published on one of the magazine’s pages.
If the exterior of the pharmacy featured ornaments, the interior was equipped with white-painted wooden and glass furniture, with lateral lighting.
The furniture contained other details as well.
On the upper front portion, names of remedies such as Asthmina, Nervonina, Sezonal, Boldoina and Vimmo Fialho were carved in high relief on the wood.
All were developed by Portuguese pharmacist Henrique Eduardo Nunes dos Santos in the laboratory on the building’s second floor,
where other medications were also produced: Dermol, Blenol, Lindacutis, Visuol, Dermogene, Morfeol and Dermolina.
Henrique had graduated from the Faculty of Pharmacy at the University of Coimbra in 1889.
He founded Pharmácia Dermol in 1906, when he was 40 years old.
He first opened it in a ground-floor building, which he later used as a storage site for the new pharmacy, built next to the original and inaugurated in 1913.
These details about Henrique and his pharmacy were provided by his grandson, Gilberto Ferreira de Carvalho, to the Historical Pharmaceutical Archive.
What were the pharmacy’s remedies used for?
In 1910, Dermol published advertisements for three of them in the Indicador Ilustrado do Pará.
Blenol was presented as “the only and true specific for diseases of the mucous membranes of the genito-urinary organs, in men and women.”
Dermol was described as “a precious and unique specific for epidermal diseases: ringworm, herpes, chilblains, eczema, lupus, etc.”
As for the Elixir of Chaulmoogra, the advertisement claimed it was a perfect discovery.
Even today, chaulmoogra—scientific name Hydnocarpus kurzii—is considered a plant capable of producing therapeutic effects.
Researchers from the renowned Fiocruz (Oswaldo Cruz Foundation) published, in 2008, the results of their studies on the plant on the scientific platform SciELO, under the title:
“Chaulmoogra oil as scientific knowledge: the construction of an antileprosy therapy.”
This therapy, however, had been studied by Pharmácia Dermol in Belém 115 years earlier.
The pharmacy’s advertisement stated:
“All physicians dedicated to the study and treatment of leprosy recognize chaulmoogra oil as the best and perhaps the only medicine for this disease.
But all also recognize the difficulty of its application because the oil is not tolerated by the stomach at the dosage and duration required for treatment.”
The great advance made in Belém’s laboratory, according to the advertisement, was the separation of the active principles of the chaulmoogra oil.
This made it possible to produce the elixir, whose components included chaulmoogra oil plus sarsaparilla extract, sodium bicarbonate, tincture of gentian (another medicinal plant), pepsin elixir (an enzyme that aids in protein digestion), and more.
From this combination resulted, according to the advertisement, a liquid that aided digestion—pleasant and tonic.
Did Belém’s pharmacies deserve trust at the time?
Judging from what the respected painter and historian Theodoro Braga wrote in 1916, in the Guide to the State of Pará, pharmacies were indeed trustworthy and deserving of gratitude:
“Spread throughout the city, serving with care, cleanliness and speed, the pharmacies of Belém take the utmost scruple in preparing their medications.
Most of them offer nighttime service for filling medical prescriptions, thus serving their clientele at any hour of the night.”
As for chaulmoogra, its historical use in treating leprosy is today understood as due to the presence of fatty acids effective against Mycobacterium leprae.
Today, the oil continues to be used in skincare, aromatherapy and other holistic practices.
The end of the pharmacy’s connection to its founder
The pharmacy’s history tied to its founder ended in 1919, when Henrique moved with his family to Rio de Janeiro.
Dermol was transferred to the firm Albino Fialho & Co.
In that year, the Diário Oficial da União published the list of medications the firm was authorized to market.
But it did not remain the owner for long.
The new owner was Isaac Elias Israel.
Thanks to him and his descendants, the pharmacy building survived the destructive wave that hit Pará’s architectural heritage when the Military Dictatorship took power in Brazil in 1964.
Israel and his relatives preserved it without any official support.
Still, the pharmacy continued to undergo changes.
First, its name changed—to Farmácia Central.
In 1967, it became Farmácia República.
The worst, however, happened in 2017:
the beautiful Pharmácia Dermol was transformed into a convenience store.
Oswaldo Coimbra is a writer and journalist
(Illustration: Interior of Pharmácia Dermol)















