Com os costumes da cidade grande, cheguei no interior sem compreender que o ser humano ainda é capaz de algumas gentilezas. Na primeira carona que peguei, desci agradecendo com afinco e perguntei o quanto poderia contribuir pela gasolina consumida. Senti que a pergunta insultava aquele senhor e sua generosidade inata. Foi uma lição.
Um professor enfrenta muitos desafios no seu dia a dia, mas nunca imaginei que esperar – sem certeza ou fé alguma – por uma carona para enfrentar 22 quilômetros de estrada de chão, passando por fazendas, igarapés, pontes e floresta densa, seria tolerável. “Calma, uma hora passa alguém e leva”, tentavam me tranquilizar os locais – sempre dispostos a encontrar alguém para esse favor.
A sensação da espera é quase a mesma que estar abandonado ou se perder dos pais no shopping. Só restam as incertezas.
Com o tempo fui pegando a prática. Não basta fazer o tradicional gesto de legal, deve haver uma elegância, uma feição. É arte. Suas sacolas não podem estar muito visíveis, pois muita bagagem afeta negativamente sua imagem. É como receber e mão e querer o braço todo. Calma.
Após mais de 1 ano nessa vida descobri um livro aberto em cada viagem. O campo é diverso, simples e complexo, generoso e rigoroso, terra de gente boa. Eles adoram conversar, contar da sua terra, o trabalho duro e o quanto o ramal mudou: de muita pistolagem disputando a madeira, até o acalmar dos ânimos com diversidade do campesinato.
Como convidado, ora de um super carro de luxo que conta até com internet, ora de um carro que apenas anda, minha função é ouvir. Concordo com todos, mudo minha opinião, contemporizo, acho graça, compreendo, agradeço. Depender de carona requer o exercício da resiliência. Só não viro Remo. De resto, apoio!
Uma das vezes, na cargueira de um carro, ao lado de um jovem trabalhador da soja que estava com um grave corte de enxada, começou a chover e nos escondemos apenas com uma lona curta, que no melhor cenário apenas evitava da água molhar o cabelo, me perguntei o que fiz da minha vida.
Outra vez, no topo de um cargueiro de madeira – provavelmente ilegal -, não liguei para o perigo, a poeira ou o surto que minha mãe teria de me ver ali.
Aí entendi o que fiz da vida: virei professor no interior da Amazônia.















